Tinha, lá pra lá, em um lugar que nem tinha nome de tão longe, uma pequena cidade. Não viviam mais de algumas centenas de pessoas lá, mas era o suficiente. Suficiente para o mundo acabar ali mesmo. Era meio precária, cabanas tortas no meio do morro, algumas vacas e hortas em seus próprios terrenos. Não que cada pessoa tivesse um próprio território marcado, porque era tudo de todo mundo, tudo amigável porque o pecado não tinha ainda tocado a alma daqueles seres humanos tão distantes... Mas por pouco tempo.
Há alguns anos, Elizabeth, uma mulher baixinha e loira, por causa de um estupro nunca contado pra ninguém, tinha dado a luz a uma menina igualmente loira, dos olhos azuis e das bochechas rosadas. Chamaram-na de Enkel. Seria a experiência mais pura, mais linda e perfeita, mas havia algo errado com Enkel. E com a ajuda do pouco tempo e pouco amor vindo da mãe, ela não era como uma criança normal. Nos primeiros anos, a mãe da menina não achava normal porque ela não chorava. Não chorará na hora do parto, e nem depois. Simplesmente permanecia quieta, com os grandes olhos azuis claros sempre olhando fixamente pra face de quem a pegasse no colo, ou olhando para todos os cantos do quarto onde estava.
Quando desenvolveu a habilidade de andar, Enkel quebrava tudo ao seu alcance. Não sem querer, ela simplesmente pegava as coisas, e quebrava da maneira que achava mais prudente. E gostava de quebrar coisas que tinham algum valor para os outros. Parecia que ela sabia como fazer os outros sofrer. Várias vezes o marido de Elizabeth espancou Enkel, castigou-a. Mas nenhuma lágrima, só o rosto infantil, olhando o homem. Ele se sentia culpado, todas as vezes, mas não via outras alternativas. E isso ela nem tinha passado da idade de três anos. E por mais que a mãe dela tentasse, ela não falava. Ficava quieta, com os lábios cerrados, apenas olhando a mãe implorando pra que ela falasse “mamãe”.
Com a idade de sete ou oito anos as coisas começaram a ficar um pouco mais sérias. Quebrar janelas já não era dos seus passatempos favoritos, mas sim matar pequenos animais. Constantemente achavam-na em galinheiros coberta de sangue e penas de galinha. Matou uns gatos, ratos, pássaros. A primeira vez que Elizabeth viu a menina sorrir foi quando tinha pelos 10 anos de idade e com algo que se aproximava de um canivete um uma adaga nas mãos, e um pequeno bezerro morto perto de si em um campo de gado.
Até tentaram colocar a pequena junto com outras crianças em uma escolinha infantil. Mas ela sempre estava perseguindo as outras meninas e meninos, batendo, puxando os cabelos, mordendo as crianças até que o sangue saísse grosso entre os cortes dos dentes de Enkel.
Aquilo foi a gota d’agua.
Todas as pessoas da cidade estavam amedrontadas pela a alma Enkel. Os mais velhos diziam que ela era o pecado em carne e osso, e outros diziam que era a filha do próprio Belzebu. Nenhuma família dormia sossegada, nenhuma criança brincava na rua, e constantemente os cabelos loiros avoaçados atormentavam os moradores. Elizabeth teve de tomar medidas drásticas em trancar a garota no porão de dois metros por quatro que tinha em casa. Só abria a porta pra alimentar a menina. Alguns padres, exorcistas, benzedeiros e até feiticeiros (nos momentos de mais fúria de Enkel, quando se podia ouvir ela se debatendo contra as paredes do porão), mas nenhuma reza, mandinga ou magia acalmava a menina. Só saia de lá uma vez em 10 dias, amarrada às marras pelo seu pai e mais alguns corajosos que se despunham de sua força pra segurar e amarar a garota.
Com 17 anos, com uma inteligência incomparável para qualquer pessoa residente naquela vilinha onde ela morava, a fúria de Enkel estava cada vez maior. E piorava. Entendia o medo deles, e isso fazia a sorrir, e o ódio nunca explicado, e a vontade de matar, e a vontade de provocar os outros, de sangue, de dor dos outros só crescia. Em uma das “viagens” pra fora do porão, amarrada e colocada contra um armário da cozinha conseguira pegar uma faca, discretamente que havia sido esquecida ali, e colocar por debaixo da saia, mesmo com as mãos amarradas nas costas. E quando seus malditos pais saiam para ir rezar pela alma da filha na igreja, ela tentava quebrar o cadeado pela fenda que tinha entro as madeiras da parede e a da porta. Tinha uma hora por dia quando seus pais saiam juntos, entre dez dias que não era feita a limpeza em seu “quarto” pra futricar na fechadura. Não preciso mais do que cinco. A raiva, e o fato de não ter medo da dor que tinha nas mãos de tanto mexer a faca precária, ela conseguira abrir a porta.
Pulou a janela baixa, com suas roupas sujas e fedendo, duma mistura sangue e urina seca, com os cabelos desgrenhados de ficar 24 horas por dia num local pequeno e úmido. Com metade da vila na igreja, as ruas estavam vazias e foi fácil de roubar roupas limpas de algum menino num varal correr em direção as florestas que cercavam ali, e ficar se escondendo até que anoitecia. Vestiu a camiseta masculina branca de botões, e as calças, não com muita dificuldade, pois apesar de ser roupas quase de criança, Enkel não era tão grande. Com galhos finos trançados e amarrou os cabelos em um rabo de cavalo.
Não demorou muito pra ter que se meter mais pra dentro da floresta, pois homens estavam atrás dela, gritando seu nome, suplicando para que aparecesse. Mas ela sabia que no fundo nenhum queria que ela aparecesse, e que se sumisse de vez pra sempre, pois estavam morrendo de medo de que a loirinha aparecesse. De longe, nas sombras, e com a facilidade de correr com roupas de meninos e pés descalços se escondia entre as arvores, só observando enquanto a noite caia. Portavam armas nas mãos, então ela não podia arriscar.
Enquanto a cidade adentrava a floresta, ou se abrigavam em suas casas, Enkel deu a volta na cidade, e entro de volta nas suas ruas desertas e de pouca iluminação. Andou em direção da igreja. Entrou dentro dela, sujando o piso de terra molhada, com a imagem de cristo em uma cruz acima do altar, lhe fitando com o olhar triste. Parecia saber que aquela menina não tinha mais alma pra ele, e nunca teve. Ela sorriu, com os dentes escancarados para a estátua acima dela na cruz e se segurou pra não gargalhar.
Com as pequenas mãos, derrubou propositalmente algumas velas que estavam ali por almas inocentes pelo chão e logo o fogo começou a se espalhar pelos panos do altar, e pela madeira do chão. Andando de costas para a porta, olhando o fogo se espalhar com facilidade sorriu, e saiu pela porta, ficando a frente da igreja. Umedeceu os lábios, e quase que em um piscar de olhos a igreja toda ardia em chamas altas, amarelas e vermelhas, vorazes e cheia de fúria de Enkel.
A cidade ia despertando de seus pesadelos, pra viver um real. Pouco a pouco algumas pessoas começaram a sair de suas casas gritando, pedindo ajuda a Deus, e desesperadas. Logo havia uma multidão as costas da garota loira, que não se virou, mas tinha em seu rosto o sorriso do próprio diabo. Se debatendo entre a multidão até chegar à frente estava Elizabeth.
- Enkel! – gritou a mulher ao chegar à frente de todos, e ficar a uma distancia de cinco metros da filha, que se virou e a fitou com o olhar baixo e vermelho pelo fogo que ardia as suas costas.
- Mamãe. – soou debochada, e a mulher caiu de joelhos ao ouvir pela primeira vez a voz do seu bebê. A garota riu e se aproximou da mulher de joelhos e a puxou pelos cabelos pra mais perto do fogo, onde estava antes.
A multidão se mexia a cada movimento de Enkel, mas ninguém fazia nada. Ninguém tinha coragem de falar, até parece que tinham se esquecido como se andava, ou fazia qualquer coisa. – Por quê? Por quê? – Gritava a mãe desamparada enquanto a filha a arrastava pelos cabelos pra mais perto da igreja. Jogou a no chão, fazendo um pouco de poeira levantar. Com toda a fúria quente no peito, Enkel falou. No momento pareciam apenas palavras baixas só para a mãe, mas todos os aldeões juraram ouvir como se fossem sussurros dentro dos próprios ouvidos.
- O diabo mandou lembranças da onde eu vim, e disse que não se esqueceu dos teus pecados.
Todos olhando Enkel, Enkel olhando todos, sua mãe chorando fracamente. Ela virou as costas ao povo e foi entrando na igreja em chamas, devagar, tranquila, a fúria queimada.
Houve boatos por anos sobre essa história, sobre a roupa que ela usava de verdade, que na verdade ela nem era loira, que a mãe dela não tinha esse nome, que algumas pessoas desmaiaram enquanto ela falava, ou até que morreram. Mas a frase é sempre a mesma. O nome é sempre o mesmo.
O porão, o sangue e o fogo.
sábado, 24 de dezembro de 2011
sábado, 17 de dezembro de 2011
Na tardinha.
Pensei em tomar um café forte.
Pensei em comer alguma coisa.
Pensei em arrumar aquelas roupas bagunçadas.
Pensei em tirar umas fotos decentes.
Pensei em fazer algo pela minha vida.
Pensei em ser um pouquinho mais feliz.
Pensei até em você.
Nada disso fiz.
É a preguiça.
Pensei em comer alguma coisa.
Pensei em arrumar aquelas roupas bagunçadas.
Pensei em tirar umas fotos decentes.
Pensei em fazer algo pela minha vida.
Pensei em ser um pouquinho mais feliz.
Pensei até em você.
Nada disso fiz.
É a preguiça.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
A luz que a lua não tem.
E estava lá a lua, parada. Minha alma quase sempre inquieta, acalma. Meu pés frios, esquentam. Minha alma derrete, é o verão. Mais uma palavras no papel, um pé na frente do futuro mas não pra seguir e sim pra tropeçar. E a lua, amarela lua, no céu sozinha sem estrelas, pobre lua.
Sou tão lua quanto ela própria. Sozinha, precisando de uma iluminação que eu nunca fui capaz de produzir por mim só ser. Preciso de ti como todas as outras coisas que não tenho. Preciso um pouco mais de mim, um pouco mais de não pensar demais.
Sozinha. Lifeless. Eu.
Sou tão lua quanto ela própria. Sozinha, precisando de uma iluminação que eu nunca fui capaz de produzir por mim só ser. Preciso de ti como todas as outras coisas que não tenho. Preciso um pouco mais de mim, um pouco mais de não pensar demais.
Sozinha. Lifeless. Eu.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Mais um dia qualquer
Segunda-feira, um tédio total. O sol resolveu querer matar todo mundo hoje. Ninguém prestando atenção em nenhuma palavra que a palestrante falava que até ela se perdeu várias vezes, e não se achava. Gaguejava bastante, provavelmente a primeira palestra dela, mas não era problema de ninguém ali. Dia errado pra ela começar, muito quente. Quem diria que depois dali ela beberia tanto o se fracasso e acabaria em um hospital em coma alcoólico. Mas isso não era problema de ninguém dentro do salão. Cada um tinha seus próprios problemas.
O ar quebrado, e os ventiladores portáteis que trouxeram não eram suficientes. Uma menina de cabelo cacheada estava grávida, e batucava o lápis na mesa freneticamente. Mas isso não era problema de ninguém, além dela e do loirinho do fundo da sala, que roia as unhas. Era o pai.
Outra fungava e espirrava frenéticamente, gripada em dezembro com os termômetros 37 graus, até pra mais. Morreu uns dias depois da palestra. Mas nem foi da gripe, atropelada mesmo. Mas isso era um problema de ninguém mais La naquela a sala.
Tinha um guri, chamado... Ninguém sabia o nome dele na real, mas chamavam ele de Jones. Jones dormia em todas as aulas, todas as palavras, o intervalo inteiro. Um vagabundo visto pelos outros dali, babando na classe em cima dos próprios livros. O que ninguém sabia é que ele trabalhava a noite toda pra sustentar a mãe viciada e a irmã menor, tinha no máximo 4 horas de sono decente e ainda tinha que estudar pra caralho pra segurar a bolsa naquela faculdade particular. Problema só dele.
Naquele calor que me faz crer fielmente que o inferno era ali, eu não tinha nenhum problema. Eu achava que tinha, vários. Tipo as contas, os amores, mas o meu era menos. Eu era menor. Bem pequeno. E no final, todo mundo dentro do seu próprio mundo de problemas, crescendo, chorando, desistindo e morrendo. Mais morrendo do que qualquer coisa.
O ar quebrado, e os ventiladores portáteis que trouxeram não eram suficientes. Uma menina de cabelo cacheada estava grávida, e batucava o lápis na mesa freneticamente. Mas isso não era problema de ninguém, além dela e do loirinho do fundo da sala, que roia as unhas. Era o pai.
Outra fungava e espirrava frenéticamente, gripada em dezembro com os termômetros 37 graus, até pra mais. Morreu uns dias depois da palestra. Mas nem foi da gripe, atropelada mesmo. Mas isso era um problema de ninguém mais La naquela a sala.
Tinha um guri, chamado... Ninguém sabia o nome dele na real, mas chamavam ele de Jones. Jones dormia em todas as aulas, todas as palavras, o intervalo inteiro. Um vagabundo visto pelos outros dali, babando na classe em cima dos próprios livros. O que ninguém sabia é que ele trabalhava a noite toda pra sustentar a mãe viciada e a irmã menor, tinha no máximo 4 horas de sono decente e ainda tinha que estudar pra caralho pra segurar a bolsa naquela faculdade particular. Problema só dele.
Naquele calor que me faz crer fielmente que o inferno era ali, eu não tinha nenhum problema. Eu achava que tinha, vários. Tipo as contas, os amores, mas o meu era menos. Eu era menor. Bem pequeno. E no final, todo mundo dentro do seu próprio mundo de problemas, crescendo, chorando, desistindo e morrendo. Mais morrendo do que qualquer coisa.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Obsoleto.
- Toda a sua negação não vale um centavo! Eu me lembro bem da vez que tu escreveu, e disse, e sentiu que me amava. Você pode enganar todo mundo, menos a mim.
- Tanto faz.
- Da onde que veio toda essa indiferença? E pra que essa indiferença? Tu costumava a me amar, e ler os teus poemas pra mim. Pra que isso tudo agora?
- Sei lá.
- Sei lá? SEI LÁ? Porra Luiza.
- É, sei lá.
- Caralho. Eu achei que tu me amava.
- Eu também achei.
Coçou o nariz.
- Vai embora.
- Eu já fui faz tempo.
Daí se beijaram.
E começou tudo de novo. Ela se afastou, ele ficou puto, ela volta, e ele acha que vai dar certo. Mas nunca dá. Sempre dá.
- Até quando, Luiza? Até quando?
Ela traga o cigarro lentamente, e sorri com os olhos semi-cerrados.
-Pra sempre.
E ri.
- Tanto faz.
- Da onde que veio toda essa indiferença? E pra que essa indiferença? Tu costumava a me amar, e ler os teus poemas pra mim. Pra que isso tudo agora?
- Sei lá.
- Sei lá? SEI LÁ? Porra Luiza.
- É, sei lá.
- Caralho. Eu achei que tu me amava.
- Eu também achei.
Coçou o nariz.
- Vai embora.
- Eu já fui faz tempo.
Daí se beijaram.
E começou tudo de novo. Ela se afastou, ele ficou puto, ela volta, e ele acha que vai dar certo. Mas nunca dá. Sempre dá.
- Até quando, Luiza? Até quando?
Ela traga o cigarro lentamente, e sorri com os olhos semi-cerrados.
-Pra sempre.
E ri.
Cruel
Aquela lanchonete, do fim da rua. Tão perto e tão longe.
E tu decidiu que ia se encontrar lá.
Lá com outro alguém, que não eu, que tão distante.
E eu?
Onde eu estou?
-
E eu que só tinha um coração,
me sinto um tanto afundando na lama.
Agora ando pelas ruas esperando que alguém me encontre,
alguém que não é real, ou que não existe.
A culpa é sua.
-
Chora.
E todos seus suicídios, e todos os meus.
Eu vou tentar mais umas vez, vem comigo.
Olha só meu peito aberto, toda a vergonha escorrendo entre meus dentes.
-
As mãos em ti não são as minhas.
As minha mãos não são as minhas.
As suas mãos, cadê?
Cocaína.
E teu sorriso, aberto, maniaco.
E teu choro, sofrido, desesperado.
São 5 e meia da manhã.
-
E então eu morri na praia.
e você feliz na tua casa de campo,
com seus filhos puxando sua saia rodada.
Eu afogado.
Eu morto.
Podia ter sido diferente.
E tu decidiu que ia se encontrar lá.
Lá com outro alguém, que não eu, que tão distante.
E eu?
Onde eu estou?
-
E eu que só tinha um coração,
me sinto um tanto afundando na lama.
Agora ando pelas ruas esperando que alguém me encontre,
alguém que não é real, ou que não existe.
A culpa é sua.
-
Chora.
E todos seus suicídios, e todos os meus.
Eu vou tentar mais umas vez, vem comigo.
Olha só meu peito aberto, toda a vergonha escorrendo entre meus dentes.
-
As mãos em ti não são as minhas.
As minha mãos não são as minhas.
As suas mãos, cadê?
Cocaína.
E teu sorriso, aberto, maniaco.
E teu choro, sofrido, desesperado.
São 5 e meia da manhã.
-
E então eu morri na praia.
e você feliz na tua casa de campo,
com seus filhos puxando sua saia rodada.
Eu afogado.
Eu morto.
Podia ter sido diferente.
Assinar:
Postagens (Atom)