Masoquismo mental é um blog de autoria de Francis Lopes. Todos os textos aqui são todos de pura natureza minha, escritas apenas por mim.
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Obrigada.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A chuva da garota.


Quando mais novo, entre o fim dos anos setenta até o final dos anos oitenta, mudei de casas muitas vezes. Variando de duplex, casas com grandes quintais, sem quintais, alugadas, compradas, apartamentos, trailers, hotéis e entre outros lugares, meus pais não se mudavam porque meu pai recebia grandes promoções ou porque minha mãe era uma escritora renomeada que queriam ela por todos os cantos do país, não. Nós só nos mudávamos porque era assim que meus pais gostavam de viver. Não se apegavam a lugares, amigos ou empregos. Tinha ido a algumas escola, mas nunca tinha dado muito certo, então aprendia com meus pais, livros e todo o tipo de gente que conhecia. Gostavam de conhecer lugares e gente diferente, e pra mim isso nunca foi uma coisa ruim como é para a maioria das crianças.

Eu não era deslocado ou tímido. Muito pelo contrário, gostava de fazer amizades por cada canto que passávamos, não importava idade, cor ou raça, eu sempre estava envolta dos amigos que meus pais faziam e as crianças curiosas que sempre rodeavam a gente por sermos novos nos respectivos locais. Há muitos lugares especiais no meu coração, onde eu aprendi coisas que nunca vou esquecer. Mas nada foi tão marcante pra mim quanto a garota da chuva.

 Eu devia ter por volta dos meus 13 anos quando meus pais compraram o nosso primeiro motor home. Tínhamos permanecido em uma cidade pequena por quase 1 ano inteiro para que eles conseguissem juntar dinheiro para comprar o motor home e para que pagasse a gasolina e outras dispensas de viagem. Eu estava muito ansioso para essa viagem, porque já tinha me acostumado a me mudar mais ou menos a cada 3 meses, e 12 meses em um solo só estavam me deixando, ao contrario das pessoas que sentem falta de suas casas, estava doente por uma casa nova. Viajamos por 3 dias direto, meus pais trocando de direção a cada 12 horas para que um pudesse dormir e comer alguma coisa.

Eu estava dormindo quando chegamos a um estacionamento de motor homes, que tinham mais de 20 estacionados totalmente desorganizados. Foi o barulho quente de pessoas falando e rindo que me acordaram do sono pesado no pequeno sofá que eu tinha me escorado. Era bom, eu gostava desse tipo de gente, calorosa e acolhedora. No último lugar que tínhamos estado pelo ano inteiro todo mundo era muito tedioso e não tinha muito o que contar e acrescentar em nossas vidas. Talvez tenha sido bom até, porque dessa forma aproveitei a estada no estacionamento muito mais.

Desci de nosso motor home sorrindo procurando onde meus pais estavam, mas nãos os vi de primeira. Havia uma grande mesa estendida na rua e todos comiam, bebiam e tagarelavam sem parar. Alguns comiam de pé, outros estavam nas churrasqueiras alinhadas, outros tocavam violão e alguns cantarolavam canções sem sentidos. O calor deixava o que estava amostra das pessoas vermelho e descascado, e o cheiro de churrasco e felicidade era ótimo.

Depois de alguns minutos conhecendo alguns "vizinho", encontrei meus pais sentados em uma toalha conversando com uma mulher, o qual era chamada carinhosamente de Baba, que eu chutei ter uns 70 anos por sua aparência, mas ela falava como uma moça de 20 anos. Era muito engraçada e tinha uma desenvoltura magnífica. Todos os dias eu ia até seu trailer para ouvir algumas de suas histórias loucas, nem sempre acompanhado de meu pai ou minha mãe. Ela fazia um chá maravilhoso, além de sempre ter quantidades de bolo ou biscoito para alimentar um exército inteiro. Todos amavam ela, inclusive eu.

Eu não sei porque, mas quase todas as minhas lembranças do estacionamento eram de sol fervoroso, forte, radiante, com apenas uma ou duas pequenas nuvens no céu. E a distância eu via algumas montanhas, que de tão longe se tornavam menores que meu polegar esticado. Mas há uma memória especifica que nunca saíra da minha mente, nem mesmo em meu leito de morte.

O dia começou cinzento, e eu pude ver as mulheres tirando as roupas dos varais improvisados e chamando os filhos mais velhos para dentro do trailers e carregando os mais novos no colo. Todos se trancaram em seus trailers, e o estacionamento se transformou completo silêncio por alguns minutos. Fiquei olhando por uma janelinha, esperando os primeiros pingos de chuva cair. Foi uma chuva intensa, daquelas que não mudam de forte pra fraca várias vezes enquanto lavam o chão. Essa chuva se manteve forte do minuto que começou até o que se cessou.

Meus pais foram se deitar e pareceram adormecer profundamente com o som maravilhoso que a chuva fazia batendo no teto de aço, enquanto eu fiquei debruçado na janela que tínhamos em nossa "sala". Então eu a vi. Vestida em um vestido amarelo rodado de alças que iam até os joelho, parecia ter saído do nada. Tinha os cabelos curtos grudados no rosto redondo por causa da chuva forte e não parava de sorrir nenhum minuto. Não vestia nenhum sapato e eu fiquei me perguntando se não doía seus pequenos pés no chão incrustado de pequenas pedrinhas soltas. Não tenho certeza se ela me viu, mas enquanto girava de braços abertos sorrindo pro céu, eu tenho certeza que nossos olhares se cruzaram pelo vidro do motor home. Até hoje fico triste por ela não estar perto o suficiente para eu ver a cor de seus olhos, mas quando ela vem me visitar em meus sonhos e me olha de perto é do verde mais brilhante que você pode imaginar. Deslumbrante. Mesmo de baixo da chuva gelada suas bochechas continuavam rosadas. Devia ter entre 14 e 16 anos de idade, mas não era muito alta. Ficou pelo estacionamento andando e dançando pelas duas horas que a chuva caiu
.
Então poucos segundos antes da chuva acabar, parece que em um piscar de olhos muito demorado que dei, ela sumiu, e então a chuva foi junto com ela. Eu abri a porta e pulei para fora, e corri pelo local, mas  como uma fada ela partiu tão misteriosamente quanto chegou. Tentei descrever o melhor que eu pude a Baba, pois depois de perguntar a todos os que eu tinha feito amizade sobre a menina, era minha última chance. Mas ela também não sabia de nada.

Não falei mais sobre esse assunto com meus pais ou com mais ninguém, pois não queria que achassem que eu estava ficando louco ou remoendo uma alucinação. Mas eu sei que eu não tinha inventado aquilo, que não era coisa só da minha cabeça. A menina do vestido amarelo era tão real quanto a chuva. Não ficamos no estacionamento mais de 4 meses.

Eu ainda, toda vez que chove, não importa onde eu esteja, me debruço na janela mais próxima, esperando que possa ver aqueles pés descalços e cabelos molhados, girando e sorrindo. Mesmo que ela não saiba, que ninguém saiba, eu sei que ela estava sorrindo para mim. 

sábado, 27 de outubro de 2012

Escuras.


Eu morava a um ano e meio naquela casa. Era pequena. Um quarto, um banheiro, a sala, e a cozinha. Mas eu estava feliz com ela, recebia alguns amigos durante a semana que elogiavam o quanto eu conseguia manter tudo em ordem mesmo morando sozinha. Era simples, ninguém me incomodava e eu não incomodava ninguém.  Mas um dia, o sol não amanheceu. A casa se localizava mais ao no lado rural da cidade, onde não haviam muitas casas, e mesmo eu morando a tanto tempo lá eu não conhecia quase ninguém. Só tenho a culpar a mim. Eu sou meio introvertida e optava por ficar trabalhando em meus quadros do que fazer amizade com os vizinhos. Provavelmente esse tenha sido meu erro.

Eu estava deitada em minha cama, dormindo tranquilamente quando ouvi o Bip do despertador do meu relógio digital. No escuro brilhavam em vermelho indicando que já eram nove horas da manhã, e que estava na hora de eu me levantar. Mas, estranhamente, tudo estava escuro. Eu levantei, esfreguei os olhos e olhei o relógio com mais atenção. Não podia ser nove horas se tudo ainda estava escuro. Supus que tinha faltado luz durante a noite e voltei a dormir, já que era domingo e não pretendia fazer mais nada. Dormi mais algumas horas e quando acordei o relógio não estava mais ligado. Eu não estava mais cansada ou com sono, e fiquei deitada na cama. Ainda estava tudo escuro. Por essas horas já devia ter amanhecido. Suspirei. Não conseguia entender nada.

Me levantei e com ajuda da luz do celular me guiei até a janela do meu quarto. Olhei para fora atrás vez do vidro e tudo estava escuro. Nenhuma luz em nenhum lugar por perto. Nem uma casa tinha as luzes ligadas. Fui até o interruptor e tentei ligar a luz, mas não havia nenhuma luz. - Droga - suspirei. Ainda estava meio tonta do sono longo, e me direcionei a sala, até a porta da frente de casa. Abri e me direcionei até a rua. Estava um silêncio mortal. O vento não fazia nenhum barulho, as árvores estavam imóveis, eu não ouvia o barulho de nenhum animal e de nenhum inseto. Era horripilante, como se eu tivesse ficado surda de uma hora pra outra. Bati palma, pra ter certeza de que eu ainda podia ouvir, e o barulho pareceu tão alto no silêncio que ecoou pela escuridão e doeu nos meus ouvidos. Então percebi que podia ouvir meu próprio coração batendo rápido no meu peito. Minha respiração descontrolada, e até o estralar leve do meus ossos de vez enquanto quando me movia. Olhei para o céu sem ajuda da iluminação do meu celular e era como fechar os olhos. Nenhuma nuvem, nenhuma estrela, constelação, nada. Nem mesmo a luz que estava cheia ontem a noite tinha sumido.

Entrei de volta para casa e tranquei a porta. Estava começando a ficar nervosa. Não sabia o que fazer. Tentei ligar para uma amiga que morava na cidade para saber a situação de lá, mas os celular não tinha sinal nenhum. Tentei com o telefone de casa, mas as linha estava muda. Me sentei no sofá e não sei por quanto tempo eu fiquei lá, pensando no que fazer. Deve ter passado algumas horas quando eu levantei, tirei meu pijama, coloquei uma blusa de manga longa e uma calça jeans. Amarrei meus cabelos loiros em um coque e fiquei de pé no meio da sala. Parecia que o dia nunca ia amanhecer, e eu precisava saber que isso não era um sonho, que eu não estava sozinha nessa. A bateria do meu celular começou a apitar e a luz da tela ficou pela metade, e tudo começou a ficar mais complicado. Desliguei o celular, para usa-lo em um momento que precisasse mais. Peguei uma lanterna que tinha na gaveta do meu quarto e sai pra rua. Foi a pior decisão que eu tomei na vida.

Tudo continuava escuro e silencioso. Peguei a estrada de chão, e comecei a caminhar, pois pensei que de bicicleta seria muito perigoso pra cair, e se me machucasse sabe lá quando alguém me encontraria... se é que tinha alguém por aí. Minha lanterna iluminava pouco e ainda por cima uma névoa um tanto grossa. Demorei um pouco até chegar a primeira casa perto da minha, uns dez minutos pelo menos. Bati palmas no portão e elas ecoaram tão alto que bati de bater, sentia como minha cabeça ia explodir. - Tem alguém aí? - falei em um tom não tão alto, quase um sussurro, mas qualquer um em pelo menos cem metros poderia ouvir. Não ouvi nenhuma resposta, e abri o portão (que não estava cadeado). O carro deles estava na garagem aberta, e eles não poderia ter saído daquele fim de mundo sem ele. Fui até a janela e bati com os nós dos dedos levemente. Nenhuma resposta. Apontei minha lanterna no vidro e iluminei porcamente a sala de estar da casa. Não havia nenhum movimento, nenhum barulho, nenhuma pessoa.  A única coisa que eu ouvia era meu coração batendo rapidamente.

Andei até os fundos da casa onde havia um imenso milharal. Não sei por qual ideia eu que alguém poderia estar lá, naquela escuridão. Subi em um banquinho e apontei a lanterna para plantação - Olá!? - Nenhum som. - Tem alguém aí? - Perguntei, iluminando em todas as direções. De repente eu  ouvi muito distante uma movimentação no milharal. Muito distante, só que era muito rápido. Nenhum ser humano podia se movimentar daquela forma, a não ser que fosse em um carrinho de golf, ou em um quadrículo. Não chamei de novo, agora eu estava apavorada e milhões de ideias estavam na minha cabeça do que podia ser aquilo. Meus olhos marejaram ao pensar em que tipo de ser estaria rastejando numa velocidade daquela pelo milharal.
Pulei do banquinho e desliguei minha lanterna, correndo até a porta de trás da casa, e por sorte ela estava aberta. Entrei e tranquei a porta, pois a chave estava lá na fechadura. Me encostei com as costas no armário da cozinha, tentando não chorar, arfar, respirar profundamente, ou qualquer coisa que me fizesse fazer algum som muito alto. Agora eu sabia que o que quer que seja, já estava fora do milharal, pois eu não ouvia o farfalhar do seu enorme corpo contra as folhas. Mas eu ouvia o esmagar da grama, e algo como um gotejar. Era tudo apavorante.

A coisa esbarrou no banco, ou em qualquer outra coisa que eu não tinha visto que caiu sobre o cimento do chão do quintal, e fez um barulho alto demais. Cobri meus ouvidos, e senti a casa e o chão estremecer quando a coisa esbarrou contra a porta, umas três vezes. Me encolhi mais para o canto, senti minhas lagrimas correrem pelo o rosto e depois então o silencio. A criatura parecia estar se afastado lentamente da casa. Tirei meus tênis pois eu tinha medo que até meus passos ecoassem. Fui até a janela da sala, subi no sofá, e apenas espiando pela pontinha da cortina, esperando não ver nada por causa da escuridão, mas eu vi.

Era uma enorme criatura, que devia ter dois metros de comprimento. Era gorda, e comprida, como uma lesma, mas tinha a pele escamosa.  Irradiava um tipo de luz própria, não muito forte, mas o suficiente para iluminar seu caminho na escuridão. Ela se movia rapidamente na estrada e logo sumiu de vista. Fiquei ainda um bom tempo na janela, esperando alguma coisa, mais alguma criatura, algum ser humano, ou que pelo menos acordasse desse pesadelo.

Então senti algo envolta do meu tornozelo e minha boca. Algo me puxou violentamente para fora do sofá, mas eu não conseguia gritar. Na verdade meu impulso foi de ficar quieta, e apenas me debater. Então eu ouvi um leve - Shhh. Calma. Fica quieta. - Fique, parei de me debater. Eu ainda tinha minha lanterna e iluminei o rosto de uma garota, talvez um pouco mais nova que eu, com os cabelos pretos amarrados em uma trança do lado da cabeça. Ela tinha os olhos arregalados e inchados, parecia ter chorado muito durante um bom tempo, como..bem, como eu.

- O que está acontecendo? - Ela perguntou com a voz chorosa. Eu não sabia da onde ela tinha vindo, se morava naquela casa ou se eu podia confiar nela. Por essas horas eu já não tinha muito o que fazer se não duvidar de tudo. Me arrastei pra longe dela no chão, ainda apontando a lanterna pra ela. - O-que-está-acontencendo? - Ela sibilou, ainda mais chorosa. - Eu vi, eu vi aquele monstro na rua, eu não sei onde estão todos, meu pais não voltaram ontem pra casa, não consigo ligar pra ninguém...

-Shhh, fala mais baixo. - Falei, me levantando e olhando pela janela. Não havia nenhuma luz, o que me deixava segura que nenhuma lesma gigante asquerosa estava por perto. - Fique calma, okay? Pare de choramingar. Essa é sua casa?
- Si-sim. - Ela falou, se levantando.
- Lanterna?
- Sem pilha.
- Velas?
- Não.
- Mas que merda. - me levantei, passando a mão na cabeça.
- Desculpe. - ela falou choramingando, encolhida no chão abraçando as pernas.
- Não é sua culpa.

Eu não conseguia pensar direito, tudo girava e o choro baixo da menina invadia meus ouvidos de um jeito absurdo, latejando meu cérebro. Eu só conseguia pensar que devíamos nos deslocar pra cidade, ou para algo que pudesse nos proteger de um jeito mais eficiente. Enquanto eu pensava, comecei a ouvir um choro simultâneo ao da garota que devia agora, olhando pra ela com a luz da lanterna, devia ter uns 14 ou 15 anos. Ela tinha calado a boca, e parecia agora extremamente culpada, enquanto outro choro soava alto vindo de um dos quartos. Marchei até o quarto e abri a porta. Dentro, iluminei uma criança, muito pequena, que devia ter no máximo dois anos, de pé ao lado de uma cama improvisada no chão.

A garota saiu correndo da sala e pegou a bebê no colo, falando para ela se acalmar, e depois de alguns minutos, com o dedo na boca a menina se calou. Fiquei pensando qual seriam minhas chances de sobreviver cuidando de duas crianças. E eu tinha apenas 20 anos. Eu não tinha experiência. E como eu correria rápido segurando um bebê? Mas eu simplesmente não podia deixar as duas sozinhas. Estavam tão sozinhas, pequenas, abraçadas uma a outra, sabendo que suas vidas se dependiam, de alguma forma.

- É sua irmã? - Perguntei para  mais velha.
- Não. - Ela falou soando mais culpada ainda, e embalando a criança. - Ela estava andando sozinha, chorando na estrada, então eu tive que pegá-la.
- Você pegou esse bebê da estrada?!
- O que eu devia fazer? Deixar ela lá pra ela morrer sozinha? Sem nenhum pai ou mãe por perto? Com essa escuridão toda? Ela estava apavorada.
- Okay, acalme-se, não grite! - Falei tentando acalma-la, com as mãos na minha cabeça, sem ideia do que eu poderia fazer no momento. Me sentei no chão e desliguei a lanterna. A menina pequena começou a chorar baixinho.
- Ela tem medo do escuro... - falou a outra, e eu suspirei, ligando de novo a lanterna.
- Acho que ela vai ter que se acostumar com a situação e ficar quieta. - Eu não estava com muita paciência para nenhuma das duas. - Qual o nome de vocês?
- Eu sou Kate, e ela... bem, a pulseirinha que ela tem no pulso diz "Emily".
- Sou Tara. Olha só Kate, eu sei que você já tem idade pra entender qual é a situação aqui, muito séria. A gente tem que dar o fora da sua casa e ir pra cidade, eu sei que é longe a pé, mas se cortarmos caminho pela floresta acho que talvez demoremos umas 3 ou 4 horas caminhando. Vai ser cansativo, eu sei. - Coloquei a mão no rosto. Minha própria voz me cansava, como se fizesse pressão nos meus ouvidos. - Você tem a opção de ir comigo, ou ficar aqui e esperar que tudo volte ao normal. Mas eu não vou ficar aqui esperando ser demorada por essas porras que tão por aí.
-Tudo bem, a gente vai com você. Farei o possível pra te acompanhar, junto com a Emily.
- Okay...Precisamos comer alguma coisa antes de sair.

Andei para sala enquanto ela vinha atrás de mim. Deixei a lanterna ligada em cima da mesa, e como era daquelas pequenas recarregáveis a mão, eu não tinha medo que ela acabasse.  Kate colocou a nenê no sofá, que ficou deitada chupando o dedo enquanto nos acompanhava com os olhos. Ela parecia até calma, pelo menos não ficava chorando o tempo todo.  Procurei por algo na geladeira, e peguei pão e preparei um sanduiche de pasta de amendoim para a pequena. Não havia nada que pudéssemos fazer que demorasse muito, então enquanto eu ia sofá oferecer a pequena, Kate fazia um para mim e para ela, e até mais alguns para a viagem.

- Oi. - falei suavemente enquanto sentava do lado dela no sofá. Ela esticou a mãozinha e abanou, sem tirar o dedão da boca. - Está com fome, Emily? - Ela fez que sim coma  cabeça. - Olha a tia trouxe um sanduíche pra ti, você gosta?
- Sim. - Falou baixinho com a voz fininha, depois de tirar o dedo da boca. Pegou o sanduíche da minha mão e começou a mordiscar como um passarinho. 

Kate trouxe o meu e  colocou os outros dentro de uma mochila escolar. Colocou umas garrafas d'água também. Comemos e depois de uns 20 minutos, já estávamos saindo de casa.Coloquei meus tênis de volta, pois se cortasse meus pés na escuridão seria mais problema ainda. Kate pegou Emily no colo, mas peguei-a de seus braços. Sabia que se quisesse agilidade, eu teria que levar a bebê por um tempo, pelo menos até pegarmos distancia da casa. Emily se acomodou em meu colo, segurando-se firme, e Kate colocou as mochila nas costas.

Então começamos a andar. Não falávamos nada, e tentávamos ser o mais silenciosas o possível. Também não iluminávamos o caminho pela a estrada, pois era meio perigoso, e de alguma forma nossos olhos já tinha, se acostumado com o breu, e conseguíamos ver a alguns metros a nossa frente. Depois de meia hora andando pela estrada, alcançamos a floresta, e começamos a entrar. Por incrível que pareça, lá dentro conseguia ser ainda mais escura. Qualquer passo que dávamos nas folhas secas e galhos, ecoavam por todo o lugar. Levávamos sustos com nossa própria respiração ofegante ou nossos passos.

Depois de mais de duas horas caminhando, meus braços estavam tão cansados de carregar Emily que tive que parar por alguns segundos. Coloquei-a a no chão e sacudi os braços. Emily se abraçou a minha perna, pedindo proteção e colo.

- Você quer que eu carregue-a um pouco?
- Não... eu só preciso descansar um pouco. Me de uma garrafa de água.

Enquanto eu ela tirava as mochilas das costas eu vi uma iluminação ao longe, se aproximando rapidamente. Sacudi a cabeça, peguei Emily no colo e puxei Kate pelo braço. Comecei a correr pela mata me perdendo da trilha que antes acompanhávamos. Emily ameaçava a começar a chorar e eu tentava a acalma-la falando que estava tudo bem. Kate me acompanhava, correndo ao meu lado segurando a mochila tentando não derrubar nada. Corremos muito, por alguns minutos seguidos até eu olhar pra trás e não ver nenhuma luz. Eu não tinha percebido até parar de correr, mas eu chorava. Não aos berros, simplesmente o desespero fazia com que eu derramasse lágrimas correntes de meus olhos, assim como Kate e Emily. Eu sentia o coração da bebê batendo forte, enquanto ela estava pressionada contra mim. Passei a mão na sua cabeça, e disse mais uma vez que estava tudo bem. Por sorte, eu conhecia o caminho, e estávamos nele.

Vi a frente a colina, e coloquei Emily no chão. Tirei as coisas de dentro da mochila deixando no chão. Sabia que no topo daquele lugar conseguiria ver a cidade e uma estrada que chegaria nela rapidamente. Coloquei Emily dentro da mochila, que apesar da menina ser pequena, ela ficava quase caindo pra fora. Coloquei na parte da frente do meu corpo, e Emily me abraçou meu pescoço. A colina inclinada demais, então tinha quase que me rastejar, e me apoiar nos matos, por as unhas na terra para subir. Kate subia mais rápido que eu, e já no topo me puxou, e pegou Emily no colo. Sentei no gramado, e olhei a cidade. Eu não sabia o que pensar.

As únicas luzes que dava para ver eram de carros do exercito e tiros que eram disparados a todo o momento. Alguns helicópteros rondavam o céu, iluminado algumas partes. Havia diversos carros correndo para fora da cidade, desesperados, na maior velocidade que podiam, mas o engarrafamento era  quase obvio.

Kate em seu desespero desceu o resto da colina em desespero, cansada e suja de terra. Emily em seu colo agora começara a chorar, e eu corri atrás delas. Vi kate falando com alguns motoristas, pedindo carona, ajuda. Eu não podia deixa-la ir com quem quisesse e levar Emily. Era perigoso demais, e já me sentia responsável pelas duas.

- KATE! - Gritei, e ela olhou pra trás enquanto o motorista saia com seu carro pela estrada.
- Eu estava quase conseguindo caronas com eles!
- Você não pode pegar carona com qualquer pessoa que ver por aí, garota! - Peguei Emily no colo que parou de berrar.
- Hey, se você não percebeu é o fim do mundo, e eu não quero ficar aqui pra ser devorada ou morta! Me devolve a Emily.
- Não. Se você quer ir de carona com um estranho, vá sozinha.
- Tudo bem! Eu não ligo pra isso mesmo.

E se afastou de volta para os carros. Tinha mudado o comportamento ao extremos em segundos. Emily agora chorava se parar, e parecia estressada. Caminhei pela beira da estrada até um grupo de homens armados e vestidos com roupas do exercito. Pedi informação, ajuda, e o homem gritou comigo, com raiva, cuspindo em minha face e fazendo Emily chorar ainda mais. Mandava-a calar a boca, e me afastei, com medo de ser morta ali mesmo. Fiquei sentada na beira da estrada chorando abraçada a Emily, que tinha ficado quieta novamente. Eu estava exausta.

Depois de um tempo, comecei a ouvir a voz de uma mulher gritando ao longe, enquanto lanternas eram apontadas ao meu rosto e corpo. - Emily! Emily! - A mulher gritava, e logo a criança foi arrancada dos meus braços. A mulher agradeceu a mim a vagamente, e correu para seu carro levando a criança. O meu último pingo de esperança havia ido embora, e eu estava sozinha. De novo. Como sempre tinha sido na minha vida. Então um dos homens armados que antes tinha me expulsado me pegou pelo braço dizendo que conseguira um espaço pra mim em um dos carros.

- Cadê a criança?
- Não está mais comigo.
- Melhor assim.

Talvez fosse, pensei. Fui colocada na traseira de uma caminhonete, junto com mais 7 ou 8 pessoas. Todos estavam calados, e depois que os carros foram pegando as estradas que mais lhe davam segurança ou esperança, nosso carro ficou sozinho em uma longa e reta estrada. Ninguém falava. Ninguém chorava. Só se ouvia o barulho do carro e do motor.

- Ah não.

Um homem falou, espiando por cima da cabine da caminhonete. Olhei também. Uma iluminação rápida se aproximava. Mais de 40 das lesmas estavam vindo em nossa direção. O motorista dava a ré, mas alguém gritou e ele freou. Atrás de nós também vinham uma manada delas. Todos pularam do carros começaram a correr em todas as direções. Corri junto com mais três homens para a floresta, mas logo um senhor ficou pra trás e ouvimos seu grito ecoando enquanto um dos animais o tocava. Eu consegui ver, mesmo a certa distância, que o homem parecia simplesmente dissolver ao toque do ser. Os gritos era cada vez mais constantes e então me vi sozinha e cercada.

Foi rápido. Eu senti uma dor na coluna, mas não era tanta dor quanto eu esperava. Mas o grito que eu dei era alto, mesmo que eu não quisesse, minhas cordas vocais simplesmente não me respondiam.  Pela primeira vez naquele dia, o meu medo era me calar, pois eu sabia que assim que parasse, estaria morta. Pensei em Emily. E em Kate. Nos meus pais que não via a tanto tempo, e só agora senti falta deles. Meus poucos amigos. Eu tinha ficado sozinha por pouco tempo naquela noite, mas os minutos em silêsncio foram o de maior solidão na minha vida. O silêncio foi tanto que fiquei surda. 

sábado, 25 de agosto de 2012

Convivencia


[...] Chegou em casa, tirou seus sapatos e colocou seus óculos em cima da mesinha da sala. Coçou a barba e se olhou de relance em um pequeno espelho que tinha na parede perto da porta. Seus olhos verdes se encontraram no espelho e sentiu uma sensação estranha de não ser ele mesmo. Com a mão na barba fixou se olhando no espelho, para sua camiseta preta e de novo para os olhos e o cabelo meio bagunçado. Não parecia ter 45, qualquer um daria pra ele no máximo uns 38 anos.

            - Pai? - Ele levou um susto ao ver Sarah no corredor dos quartos olhando pra ele enquanto segurava um caderno e uma caneta. - Você tá bem? Tá se olhando nesse espelho a pelo menos cinco minutos. - Ficou o encarando, sem sorrir, mas pelo tom de voz não estava séria, só curiosa.

            - Ah, eu estou bem sim, meu doce. - Ele riu, meio nervoso, pois também não tinha ideia porque tinha se perdido na sua própria imagem no espelho. Deu mais uma olhada de relance e tirou a mão da barba, colocando nos bolsos das calças jeans escuras. - Onde está sua mãe? - voltou a olhar Sarah, que mordiscava a caneta olhando para seu caderno. - Para de morder essa caneta, ou vai acabar com a boca cheia de tinta...

            - Tá, tanto faz - ela tirou a caneta da boca revirando os olhos pro teto - mamãe foi comprar uns tecidos e agulhas e não sei o que, que disse que precisava para um novo projeto ou sei lá o que. Só queria saber se o almoço vai sair ou vou ter que comer miojo de novo. [...]

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Fuga.


Minha cabeça dói de um jeito que eu nunca senti na minha vida, estou com os olhos fechados mas com um tanto de medo de abri-los. Depois de uns segundo apenas tentando ouvir algum barulho estranho a minha volta, e tendo certeza que estou sozinho eu abro os olhos. Não faço ideia de onde estou. Okay, eu estou em um banheiro, um banheiro enorme, um pouco sujo, com toalhas jogadas no chão. Me levanto devagar e sinto uma pontada na cabeça, passo a mão perto da nuca e sinto um molhado quente. Há sangue em minha mãos e no chão também. Não há sinal de luta no local, então devo ter caído sozinho. Que baita idiota que eu sou, caindo e desmaiando em lugares desconhecidos. Me viro para a pia e me olho no espelho. Meu deus, quem sou eu? Eu não consigo lembrar do meu próprio rosto, como se esse não fosse o próprio meu.

Será que eu perdi a consciência por muito tempo? Tenho que descobrir onde eu estou. Me sinto tonto demais. Saio do banheiro e estou agora em um tipo de dormitório, há umas 10 ou 11 camas aqui. Ando até uma pequena janela e olho para fora. Só vejo campos, morros, e mato em volta do local, e uma grande mata verde. Me sento em uma das camas, e fico olhando o local. Isso é tudo muito esquisito. Será que estou em um internato? Um orfanato? Olho em volta e as coisas parecem totalmente diferente do que eu acho que devia estar acostumado. É como que se tudo que eu soubesse fosse apagado pela metade da minha cabeça. Acho que eu fui drogado por alguém e me colocaram aqui. Desço umas escadas para estar em uma sala bem arrumada, com janelas de vitral que parecem se mover lentamente enquanto a luz do sol bate nelas por fora. Estou drogado, isso é certo. As coisas parecem se mover em minha volta as coisas parecem que dançam ao meu redor enquanto eu ando.

Saio dessa sala pra me deparar com um longo corredor. Só agora percebi o quão frio está aqui. Eu não tenho casaco, só estou usando um jeans e uma camiseta de manga curta. Há alguns quadros nas paredes, muitos estão "vazios", apenas com seus fundos pintados, outros tem personagens totalmente fora do contexto para seus cenários. Isso é totalmente fora do real! Aquele quadro esta acenando pra mim? Puta merda, estou muito chapado. Balanço a cabeça com força, pra ver se consigo organizar minha visão, mas minha cabeça só vem a doer mais e minha visão ficar toda preta por alguns segundos. Me apoio na parede de pedra enquanto recupero a visão aos poucos, piscando freneticamente. Então ouço uma voz no fim do corredor gritando comigo, e olho. É um velho baixo e franzido, com cara de totalmente maluco.

                - HEY VOCÊ! O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI? - Ele grita pra mim enquanto corre e manca ao mesmo tempo em minha direção. Ele parece estar totalmente zangado comigo, e tem aquele sorriso psicopata em seus lábios. Não dou resposta e ele e começo a correr pelo corredor. - HEY, VOLTE AQUI SEU MOLEQUE!

Ele me persegue pelo corredor, e eu viro a esquerda descendo um lance de escadas que parecem balançar enquanto eu nado, mas não tenho tempo de ver direito, porque estou tão alucinado para aquele velho louco não me pegar que corro com todas minhas forças, mesmo que minha cabeça doa mais em quanto faço isso. Agora corro pelo corredor de baixo. Quando olho pra trás, ele não está mais me perseguindo, provavelmente eu despistei ele. Mesmo assim abro uma porta que vejo a minha esquerda e entro nela. É uma sala pequena, com algumas mesas viradas de cabeça pra baixo, uma pequena janela de vitral amarelado, e um bocado de vassouras apoiadas em um dos cantos.  Vou até a janela e a abro com cuidado, pois vejo que ela tem uma dobradiça. Ela parece muito velha e esta enferrujada em certas partes, mas depois de uns minutos empurrando ela cede e se abre. Vejo que estou no térreo, e me espremendo pela janela pulo para um grande gramado. Vou andando pelo gramado em direção à uma mata, bosque, ou floresta... nunca soube diferenciar direito. Olho de volta para o local onde eu estava antes. É uma enooorme estrutura, toda construída de pedra. Parece que eu voltei no tempo e me meteram em um feudo ou coisa do tipo. Estou apavorado, não consigo imaginar nenhum jeito de sair daqui. Minha cabeça dói e eu não sei o que fazer.

                - Eí, o que você tá fazendo aqui? - Uma garota com os cabelos loiros cacheados está a alguns metros de mim. Ela me olha com curiosidade e um sorriso nos lábios. Ela esta usando brincos enormes e usando um uniforme que devia ser daquele internato ali. - Você não devia ter saído com os outro? - Ela me pergunta mais uma vez, dando um passo em minha direção.

                - Eu... eu..ahn.. - respondo, passando a mão nos meus cabelos, sentindo minha mão encher de sangue que estava coagulando atrás da minha cabeça no corte que eu tinha feito. Olho pra minha mão e ela também. - eu não sei.

                -Você está sangrando!

                - Não é nada, ahn... estou bem.. - respondo enquanto continuo andando em direção a floresta. - Eu preciso ir.. para lá.

                - Você não pode ir pra lá! Vem, vamos chamar um professor.

                - Não!  Não!

Começo a correr em direção a floresta  até que a alcanço sua orla e começo adentra-la desesperadamente. Quanto mais eu entro na floresta, o dia antes que estava ensolarado parasse se esvair, e tudo lá é muito escuro. Eu ouço a menina correndo logo atrás de mim, pedindo para que eu esperasse, que ia me ajudar. Mas acho que ninguém pode me ajudar. Me drogaram, sequestraram, me botaram nesse lugar totalmente louco. Olho para trás pra ver minha vantagem de distancia dela, mas foi meu erro. Quando volto a olhar pra frente dou de cara em uma árvore e caio de costas no chão coberto de folhas e lama. Minha visão está mais turva ainda agora e vejo a menina acima de mim, ela fala mas não entendo uma palavra que ela diz. Ela tira algo do bolso de seu uniforme e aponta pro céu. Então eu desmaio.

Acordou em uma cama, com um teto enorme sobre minha cabeça. Estou de novo dentro, merda. Olho em volta e na cama do lado a três pessoas. A loirinha reconheço mas os outros dois não. Antes que me vejam eu fecho os olhos tentando fingir que ainda estou desacordado. Ouço as portas se abrirem e barulhos de sapato pelo local. Os cochichos que os três faziam se cessam. Então a pessoa que chega fala. É uma mulher, que aparenta ter já uma certa idade pelo tom de voz.

                - Fale - Ela fala em um tom severo. Não parece estar feliz.

                - Ele estava andando pelo pátio, Professora. Parecia um pouco desorientado, e agiu como se não me conhecesse. - A voz era da garota loira. Ela falava suavemente como se tudo isso não fizesse muito diferença pra ela.

                - Hm, tudo bem. Ele parece que bateu a cabeça no banheiro do dormitório. Ele pode estar confuso quando acordar, então não pressionem ele muito. E quando acordar, alguém vá me chamar.

Os três proferiram "Sim, senhora" juntos, e eu ouvi ela saindo do local. Fiquei mais uns 15 minutos deitado de olhos fechados. Eles falavam baixo demais e eu não entendi muito bem sobre o que eles falam. Depois de um tempo abro os olhos vagarosamente, e olho pra eles. Analiso os outros dois junto com a loira. Uma garota de cabeços castanhos e cacheados, e o garoto um pouco alto e ruivo.

A garota de cabelos loiros me olha e sorri para mim. Os outros dois veem que estou acordado e sorriem largamente. A garota com o cabelo cacheado pula da cama e vem em minha direção e me abraça. "Fiquei tão preocupada com você, não faça mais isso! Você está bem? O que aconteceu? Você bateu a cabeça? Ah, que bom que você está bem!  Hey, vai chamar a Professora." Ela aponta para o garoto que sai correndo aos tropeços pela porta. Eu não faço nado enquanto ela me bombardeia de perguntas, e a outra fica sentada na cama do lado balançando as pernas. Quem são essas pessoas? Eu não faço ideia ainda onde estou ou quem eu sou. Poucos minutos depois o garoto volta acompanhado de uma senhora de idade vestindo um vestido longo verde escuro, e com seus cabelos presos em um coque. Ela tira os óculos ovais do rosto e se aproxima. Coloca a mão na minha testa.

                - Você está bem?

Não respondo. Fico olhando de rosto em rosto. A garota loirinha da uma risadinha e fala entre uma risada.

                -Não sei como ele conseguiu correr do dormitório até o pátio sem seus óculos.

                - Não tem graça, Luna. - A outra menina fala. O garoto ruivo da uma risada baixa junto com a menina loira. A mulher limpa a garganta, e volta a falar.

                - Senhorita Granger tem razão. Vocês está bem, Potter?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Desculpa!

Eu sei, tenho postado em espaçadas de tempo absurdas.
Aos que não sabem, estou fazendo curso técnico de tradução e interprete em uma cidade que fica a uma hora e meia da minha, e mais um outro curso de inglês aos sábados demanhã. Então, resumidamente, estou sem tempo até pra pensar. Faço esse post pra justificar minha ausencia aos meus leitores que sempre foram-me fiéis. 

Mil perdões.

Eu sei que nada pode amenizar a culpa da minha ausencia, mas informo que agora no tempo livre em vez de postar contos aqui, estou me dedicando a escrever uma história (talvez um livro, quem sabe) que logo colocarei informações aqui no blog. E, por ultimo e não menos importante, eu estou traduzindo creepypastas (pra quem não sabe, creepypastas são pequenas histórias de terror que envolvem o real e o imaginário) no CreepyPasta Brasil. Pra conferir o blog, é só clicar no bannerzinho em baixo do contador de visita no canto direito superior.

Obrigada pela atenção, e compreensão.
Amo vocês,

Francis.

segunda-feira, 19 de março de 2012

"São longuinho, São Longuinho..."

Sabe quando você perde alguma coisa importante? Sempre acontece quando você mais precisa dela. As chaves do carro quando seu chefe liga de emergência. O controle da TV quando passa aquele comercial irritante. Seu celular quando precisa ligar à alguém. Seu pote de remédios. É Ele. Ele está sempre fazendo de tudo pra irritar você. Você pode rezar pra quem quiser, mas não vai achar o que precisa até ele devolva ao exato lugar onde você tinha deixado antes. Eles decide quando vai colocar de volta no lugar, não adianta insistir em procurar, ou reclamar. Se você pede pra alguém lhe ajude a procurar, provalemente não vão encontrar, mas se encontrar, será a outra pessoa que vai encontrar, e não você, justo em um lugar que insistes em dizer já ter procurado.

Mas, eu realmente, falo de coração pra não deixar de procurar, porque Ele gosta de brincar. Se você não procurar até ele decidir ser a hora de parar de brincar, Ele pode ficar irritado. E ninguém quer que Ele se irrite, não é mesmo?

quinta-feira, 15 de março de 2012

O começo do fim.

De longe, eu vi o mundo inteiro cair aos pedaços. Eu vi toda a humanidade que ainda existia se deteriorar, aos poucos. Na verdade, aos muitos. A população tinha diminuído a poucos milhares, e da minha janela, do oitavo andar, eu observa os prédios caídos, as almas rastejando pelas estradas.
Eu não sabia que era tão difícil se sentir impotente de fazer algo pelos outros, afinal de contas. Olhar e observar o mundo acabar, era tudo que estava ao meu alcance.

Há ainda algumas estruturas de pé por perto,e há alguém no topo de um desses prédios, que agora eram apenas como esqueletos tentando se manter de pé. Na ponta do terraço, de pé, olhando pra baixo. Eu conseguia sentir como era difícil a ideia de terminar logo com aquilo, pois eu mesmo já tinha pensado em morrer varias vezes. A luz do sol é forte demais que quase cega, o calor é insuportável, as comidas acabando, água... água nem se fala. Mas o pior de tudo é se manter sozinho, porque querendo ou não, depois de um tempo, se você não morre primeiro, você acaba sozinho. Feito eu, e feito o ser humano suicida do terraço.
Eu poderia, talvez, acenar e dar sinal avisando que eu estava ali, e que ele ou ela pode contar comigo. Mas eu realmente não posso. Minha comida é pouca, e eu morreria mais cedo se "sustentasse" mais alguém. Então eu tenho que ficar quieto, e sozinho, porque é o melhor pra mim, e talvez, melhor para ele também.
Então ele pula, e aqueles poucos segundos parecem milênios, séculos. Provavelmente essa desordem de tempo na minha cabeça é pelo sono e exaustão. Mas parece que eu consigo sentir toda agonia, e por fim alivio daquela alma esmagada no concreto frio da rua. Porque a gente sente a mesma coisa, no fim do mundo. Todo mundo, o pouco do mundo, é igual. Desumano, desnutrido, desalmado.
Talvez eu devesse me matar também. Mas seria desperdício as 3 garrafas d'água que ainda me restam e as poucas latas de feijão que eu consegui. Então eu sigo olhando pela janela, tentando me aliviar na dor dos outros.