Você pode não se lembrar, mas crianças de doze ou treze anos são mais cruéis do que qualquer outro tipo ser existente nesse mundo. Elas estão entre aquele estágio em que a pureza da infância vai se quebrando, e a inocência vai se esvaziando todos os dias um pouco mais. Mas o pior são aquelas que nem tiveram a oportunidade de ser inocentes. Meninos são ruins, mas meninas são bem piores. Do lado esquerdo do diabo, você pode ter certeza que terá uma legião de meninas de treze anos com veneno escorrendo pelos seus lábios, orelhas e olhos. São o puro mal.
Eu não tinha um cabelo legal. Não era bonita o suficiente, nem tão magra. Eu não gostava de falar com ninguém pois achava todos tremendos idiotas. Eu preferia os personagens dos meus livros. Mas nunca falei isso. Mas eles sentiam o cheiro do desprezo, e do medo também. Eu não usava roupas legais, e todos eles me odiavam.
- Ela é estranha.
- Ela é horrível.
- Ew!
Era esse tipo de comentário que eu costumava a ouvir nos corredores, no refeitório e nas salas de aula. Não fazia mais de duas semanas que eu tinha mudado de colégio, justamente pelo excesso desses tipos de conversas sobre mim. Enquanto ficava entre os insultos e olhares malvados eu não ligava muito. Não acreditava que aquelas pequenas, magricelas e sem peitos poderiam fazer algo realmente contra mim. Eu estava certa e errada ao mesmo tempo. Uma só não conseguiria, mas quatro, cinco, ou talvez oito meninas sim.
No final de semana eu tinha o costume de ir a biblioteca pegar ou devolver alguns livros que tinha pegado na semana. Desde os 10 anos de idade eu tinha pegado o costume de ler, e aos treze eu tinha me tornado uma rata de biblioteca. Eu estava com uns seis livros em uma sacola enquanto voltava pra casa a pé por uma estrada não muito movimentada. O frio cortava meu rosto, mas era bom andar um pouco e sair de casa pra não ficar ouvindo a minha mãe reclamar da minha faltas de amigos, da minha falta de vontade de parecer uma vadia em miniatura como todas as outras.
Engoli a seco quando ao longe vi algumas pessoas de bicicleta vindo em minha direção. Ao perceber que era um grupo do braço esquerdo do diabo, eu fiquei relutante se voltava e corria, entrava na mata que cercava a estrada ou apenas andava sem ligar pra elas. Optei pela última alternativa, mas parecia que elas já tinham planejado aquilo.
Ao se aproximarem, mudaram o curso, me cercando com suas bicicletas e com sorrisos malignos no rosto. Me fitavam com os olhos maquiados e riam sem parar. Eram sete ou oito garotas, todas bem vestidas com suas saias curtas, meias de lã, boinas, babados, cores e tudo mais. Uma baixinha andava bem do meu lado, como se farejasse meu medo, e Deus sabe como eu estava com medo.
- ABERRAÇÃO!
Ela gritou estridente bem no meu ouvido, que por alguns segundos tinha pensado ficar surda. Franzi o cenho e cerrei os olhos. Um grande erro mostrar fraqueza naquele momento. Em segundos todas gritavam "Aberração! Aberração!" sem parar enquanto rodeavam-me com suas bicicletas. Três garotas mais a frente pararam de pedalar e colocar as bicicletas no chão bloqueando meu caminho, e eu não tinha pra onde correr. A baixinha do meu lado sorriu,parou a bicicleta e me empurrou com força e me fez cair no chão espalhando meus livros.
Todas saíram de suas bicicletas e formaram uma roda em volta de mim, caída, fraca no chão. Ficaram me olhando com os olhos bem abertos. A baixinha olhou para uma morena um pouco mais alta que carregava uma mochila, e a mesma sorriu. Botou a mochila no chão, e abriu ela. Antes que eu pudesse ver o que tinha dentro, a baixinha (que provavelmente lidera o grupo) se colocou à frente dela, se abaixando e pegando um dos meus livros.
- O que você está lendo, aberração? Um livro sobre amores que você nunca vai ter? - E deu uma gargalhada alta, enquanto as outras acompanhavam em coro. Jogou o livro contra mim, batendo em minhas pernas com força. - Você devia ler um livro de como ser normal. Mas acho que isso nunca ia ajudar, não é verdade?
Pegou mais três livros e jogou contra mim, um deles acertando direto no meu rosto e me fazendo ficar um pouco tonta por alguns segundos. A risada delas entravam por meus ouvidos como espíritos malignos me atormentando. A garota baixa saiu da frente da morena, que eu tinha certeza que estudava comigo provavelmente, e a mesma tinha ovos na mão. Sem pensar ela pegou um e tacou contra mim, acertando meu peito, sujando meu casaco. As outras começaram a pegar mais ovos e fazer uma chuva de ovos em mim. O cheiro de podre começou a entrar pelas minhas narinas. Elas até tinham se esforçado pra conseguir os ovos mais fedorentos, podres e horríveis que existiam na cidade, provavelmente.
- Não vai falar nada? É bom mesmo que não fale. Mas se eu fosse você, correria!
Eu não devia ter, mas minhas pernas agiram por contra própria e quando vi já estava correndo o mais rápido que eu podia entrando a mata, tropeçando em pedras e raízes de arvores. Atrás de mim as oito garotas corriam atrás de mim gritando, e uivando feito loucas. Azar meu ninguém estar passando por lá naquele momento. Ou talvez, se estivesse passando alguém se juntaria ao grupinho para ver minha crucificação.
Uma garota loira e alta pra idade, mas magra feito uma tábua me alcançou e me empurrou de cara no chão lamacento e cheio de folhas. Me deu um chute no estomago só pra garantir que eu não me moveria até as outras chegassem. Quando todas, bufando, chegaram a mesma loira me levantou e me empurrou contra elas, e elas me empurram de volta, uma contra a outra, como se eu fosse um brinquedinho. Pra finalizar o momento ganhei um cotovelada no nariz que começou a sangrar sem parar, consegui um brecha e corri mais um pouco, com a visão turva das lagrimas. Corri para um lado onde tinha um riacho de ponta a ponta, e quando espiei pra trás a loira já estava na minha cola Me empurrou e eu cai na beira do riacho. Algumas outras chegaram e começaram a me bater, emburrar no chão, chutar, e cada vez mais o gosto de ferro do meu próprio sangue era quente na minha boca. Uma garota me empurrou aos chutes mais perto do riacho, rindo, se ajoelhou me pegou pelos cabelos e afundou meu rosto na água lamacenta. Engasguei e me afoguei sentindo o gosto da lama misturando-se ao sangue. Me puxou de volta para a beira, e fiquei deitada de barriga pra cima, tossindo, e chorando, e gospindo lama e sangue.
Mais uma sequência de chutes e socos, e tudo que fizesse elas esvaziarem a raiva da vida que tinham e odiavam, dos limites que as mães impunham a elas. Senti uma pontada na cabeça, um chute provavelmente, e eu não conseguia sentir minhas pernas ou braços. Ela gritavam e riam, mas algumas tinham expressões quase apavoradas no rosto. Uma ruiva de boina rosa e sardas no rosto chegou perto do meu corpo imóvel, e me deu um chute nas pernas moles.
- Vocês sabem o que eles fazem com cavalos quando eles não podem mais andar? Eles matam pra acabar com o sofrimento.
Todas ficaram em silencio se olhando, vendo até o ponto que tinham chegado. Eu não me mexia, estava com o rosto inchado, e tinha certeza que pelo menos 30% dos meus ossos estavam quebrados. Uma garota maior, corpulenta chegou detrás segurando uma pedra enorme, que pelo jeito que ela carregava, parecia ser extremamente pesada.
- Então acabemos com o sofrimento desse animal.
E eu lembro da pedra caindo contra meu crânio. Por incrível que pareça, não foi pelo impacto da pedra que morri, pois me lembro de acordar com o céu todo escurecido, mas ainda não conseguia andar. Tudo doía tanto, que eu não tinha certeza se sentia alguma dor na verdade. Fui morrendo aos poucos, com o sangue saindo do meu corpo, e descendo pelo rio, acompanhando o fluxo. Morrer devia ser uma paz tremenda segundo algumas crenças, mas foi bem longe disso.
As mesmas garotas que me mataram num momento de insanidade grupal, foram as mesmas que disseram ser minhas amigas no colégio quando à policia veio fazer perguntas. Dizer que eu era legal, e que não sabiam quem teria feito algo daquele tipo. Mentir era muito fácil quando se era o braço esquerdo do Diabo.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
Outro Alguém
É estranho eu me tornar alguém que eu sempre odiei. Todos os dias, olhar no espelho é algo insuportável, não consigo engolir ver minha imagem, digeri-la e sorrir diante de mim mesma.
Todas as vezes tento recusar que nunca odiei aquilo, ou a mim mesma, e todo o estilo que se envolve por trás de ser ou não ser alguém.
- Carol, vamos sair. - Alguém, um daqueles que odeio me diz suave, pelo telefone, ou aparecendo em minha janela ou por qualquer meio que convier. Não quero, não quero, não quero!
- Tá. Já tô descendo.
E então sair por aí. Fumar cigarros que me dão asco, beber bebidas baratas e dançar musicas repetitivas. No final das contas, todos sentados na sarjeta, vomitando, lamuriando, chorando, rindo feito dementes. Todos juntos, tudo ao mesmo tempo. E depois de algum tempo, todos se metem em alguma casa, fumam alguma coisa, injetam outra, cheiram isso e aquilo, e cada um vai pro seu próprio mundo de merda. E eu também. Mesmo que eu odeie, eu estou lá, atirada no chão, no vomito, no meu próprio desgosto.
É triste pensar que acabei me tornando o que eu sempre mais odiei. É triste pensar que voltar, no final das contas, é impossível. Eu nunca vou deixar de ser esse alguém que não sou eu. Esse alguém que me tornei por você.
Todas as vezes tento recusar que nunca odiei aquilo, ou a mim mesma, e todo o estilo que se envolve por trás de ser ou não ser alguém.
- Carol, vamos sair. - Alguém, um daqueles que odeio me diz suave, pelo telefone, ou aparecendo em minha janela ou por qualquer meio que convier. Não quero, não quero, não quero!
- Tá. Já tô descendo.
E então sair por aí. Fumar cigarros que me dão asco, beber bebidas baratas e dançar musicas repetitivas. No final das contas, todos sentados na sarjeta, vomitando, lamuriando, chorando, rindo feito dementes. Todos juntos, tudo ao mesmo tempo. E depois de algum tempo, todos se metem em alguma casa, fumam alguma coisa, injetam outra, cheiram isso e aquilo, e cada um vai pro seu próprio mundo de merda. E eu também. Mesmo que eu odeie, eu estou lá, atirada no chão, no vomito, no meu próprio desgosto.
É triste pensar que acabei me tornando o que eu sempre mais odiei. É triste pensar que voltar, no final das contas, é impossível. Eu nunca vou deixar de ser esse alguém que não sou eu. Esse alguém que me tornei por você.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Conto de Ninar
Um sonho anda atormentando minha cabeça nos últimos dias. No começo estou me observando dormir. A luz da manhã entra pelas frestas da cortina, iluminando minhas paredes azuladas. Estou deitada de uma forma desconfortável, meio torta, com a cabeça posta pra trás. Mas durmo em um sono tranquilo. Vestida por uma blusa preta e calcinha da mesma cor, me mexo até me ajeitar em uma posição normal, de barriga pra baixo. Me assistir ali, é incomodo. Me sinto incomodada por me ver dormir. Isso me da um impulso de gritar:
- ACORDE!
A voz que sai de minha boca, não é minha, e eu, na cama, acordo de um salto, assustada. Agora, não sou mais a plateia de meu sono, e estou de volta ao meu corpo. Rodeio meu quarto com os olhos, observando cada canto do meu quarto da onde vinha o grito. Nada. Me levanto, muito rápido, fico tonta, a visão foca preta por uns instantes e então tudo volta ao normal.
Vou andando pelo corredor em direção a sala, mas a casa parece um pouco diferente do habitual. Mas isso não me incomoda. As cortinas da sala estão fechadas, e vejo meu pai, sentado de costas pra mim vendo televisão. “Vendo”. Pois há só estática ali. Chamo por ele varias vezes. Não sei se é minha voz que não funciona, ou se ele não me responde, não há som nenhum na casa depois do grito que me acordou. De novo, minha percepção do sonho muda, e meus olhos, a minha visão vem da televisão. Como se eu fosse a televisão assistindo meu pai. E ele está coberto de sangue, com a barriga aberta e suas tripas caídas no carpete branco da sala. A boca aberta, e os olhos bem abertos, esbugalhados, fixando o olhar em mim... Digo, na televisão. Me vejo logo atrás de meu pai , indo em direção a ele, vendo meus lábios se moverem mas não há nenhum som. E então meus olhos voltam pro meu corpo. Inconscientemente, já sei o que vou ver, então dou um passo pra trás. A curiosidade, a maldita, é mais. Corro até meu pai, toco-lhe o ombro e ele cai de lado, com as tripas gotejando o chão, a língua caindo fora da boca, numa mistura de sangue e saliva. Ele fede. Os olhos vidrados.
Saio correndo, e mesmo que me lembre do chão da minha casa ser muito barulhento, nem um som é feito. Meus gritos, meu choro, não são nem sequer ouvido por mim mesma. Correndo pelo corredor, entro no quarto de minha irmã, quase que pra fugir da realidade. Ela só tem 5 anos e seu quarto é coberto por castelos, coisas de princesa e contos de fadas. Assim que fecho a porta, e olho para o centro do quarto, pendurada pelo lustre que imitava aqueles de castelo antigo, esta ela, enforcada, roxa. Assim como as pernas dela, penduradas, fracas, sinto as minhas amolecer. Os olhos dela se fixam no meu, enquanto seu pequeno corpo balança morbidamente. Uma gota de sangue escorre pelo canto dos lábios dela.
Recupero a minhas pernas ,esticando a mão tremulas, abro o trinco da porta que imitava um grande diamante. Me arrasto pelo corredor até sentir que podia correr novamente. Minha mãe. Corro para o quarto dos meus pais, abro a porta um pouco temerosa, mas não há nada. A cama está feita. As janelas estão com a cortina aberta, e o sol banha o quarto. É a primeira vez que eu vejo o sol, depois de acordar. Respiro fundo, e quando estou pra sair do quarto, vejo a porta do banheiro entre aberta. Meus olhos marejam pois já sei o que vou encontrar. Empurro a porta do banheiro com uma das mãos, enquanto seguro meu estomago com a outra, relutante pra não vomitar. Dentro da banheira, uma banheira cheia de sangue, está minha mãe afogada, deitada de costas, nua. O corpo inchado e arroxeando, e os cabelos castanhos longos dançando na água de sangue suavemente. Á agua vermelha, cheirando a ferrugem escorre lentamente pelas bordas da banheira, e chegam até meus pés. Corro de volta até o corredor. Um silêncio mortal. Atravesso a porta da frente, e olho pra rua. Não existe nada a não ser uma rua reta e infinita de chão batido, onde era pra afinal ter uma rua movimentada. Isso não está certo.
- ACORDE!
- ACORDE!
A voz que sai de minha boca, não é minha, e eu, na cama, acordo de um salto, assustada. Agora, não sou mais a plateia de meu sono, e estou de volta ao meu corpo. Rodeio meu quarto com os olhos, observando cada canto do meu quarto da onde vinha o grito. Nada. Me levanto, muito rápido, fico tonta, a visão foca preta por uns instantes e então tudo volta ao normal.
Vou andando pelo corredor em direção a sala, mas a casa parece um pouco diferente do habitual. Mas isso não me incomoda. As cortinas da sala estão fechadas, e vejo meu pai, sentado de costas pra mim vendo televisão. “Vendo”. Pois há só estática ali. Chamo por ele varias vezes. Não sei se é minha voz que não funciona, ou se ele não me responde, não há som nenhum na casa depois do grito que me acordou. De novo, minha percepção do sonho muda, e meus olhos, a minha visão vem da televisão. Como se eu fosse a televisão assistindo meu pai. E ele está coberto de sangue, com a barriga aberta e suas tripas caídas no carpete branco da sala. A boca aberta, e os olhos bem abertos, esbugalhados, fixando o olhar em mim... Digo, na televisão. Me vejo logo atrás de meu pai , indo em direção a ele, vendo meus lábios se moverem mas não há nenhum som. E então meus olhos voltam pro meu corpo. Inconscientemente, já sei o que vou ver, então dou um passo pra trás. A curiosidade, a maldita, é mais. Corro até meu pai, toco-lhe o ombro e ele cai de lado, com as tripas gotejando o chão, a língua caindo fora da boca, numa mistura de sangue e saliva. Ele fede. Os olhos vidrados.
Saio correndo, e mesmo que me lembre do chão da minha casa ser muito barulhento, nem um som é feito. Meus gritos, meu choro, não são nem sequer ouvido por mim mesma. Correndo pelo corredor, entro no quarto de minha irmã, quase que pra fugir da realidade. Ela só tem 5 anos e seu quarto é coberto por castelos, coisas de princesa e contos de fadas. Assim que fecho a porta, e olho para o centro do quarto, pendurada pelo lustre que imitava aqueles de castelo antigo, esta ela, enforcada, roxa. Assim como as pernas dela, penduradas, fracas, sinto as minhas amolecer. Os olhos dela se fixam no meu, enquanto seu pequeno corpo balança morbidamente. Uma gota de sangue escorre pelo canto dos lábios dela.
Recupero a minhas pernas ,esticando a mão tremulas, abro o trinco da porta que imitava um grande diamante. Me arrasto pelo corredor até sentir que podia correr novamente. Minha mãe. Corro para o quarto dos meus pais, abro a porta um pouco temerosa, mas não há nada. A cama está feita. As janelas estão com a cortina aberta, e o sol banha o quarto. É a primeira vez que eu vejo o sol, depois de acordar. Respiro fundo, e quando estou pra sair do quarto, vejo a porta do banheiro entre aberta. Meus olhos marejam pois já sei o que vou encontrar. Empurro a porta do banheiro com uma das mãos, enquanto seguro meu estomago com a outra, relutante pra não vomitar. Dentro da banheira, uma banheira cheia de sangue, está minha mãe afogada, deitada de costas, nua. O corpo inchado e arroxeando, e os cabelos castanhos longos dançando na água de sangue suavemente. Á agua vermelha, cheirando a ferrugem escorre lentamente pelas bordas da banheira, e chegam até meus pés. Corro de volta até o corredor. Um silêncio mortal. Atravesso a porta da frente, e olho pra rua. Não existe nada a não ser uma rua reta e infinita de chão batido, onde era pra afinal ter uma rua movimentada. Isso não está certo.
- ACORDE!
A flor.
Então, lá estávamos nós, como sempre. Andando de mãos dadas pelas ruas de trás da avenida, onde provavelmente não encontraríamos ninguém. Eu ria o tempo todo das piadas sem graça que você fazia, dividindo tridente de melancia, e eu, como boa apaixonada sempre com uma música de trilha sonora na cabeça. Faz tanto tempo...
Eu pedia pra você me levar até em casa, mas lembro de que foram incontáveis as horas que ficávamos sentados na calçada da rua atrás da minha casa, pra ficar conversando, trocando beijos, sorrisos e frases idiotas. Era puro coração, era alma. Até acho que teríamos dado certo, em algum ponto que agora olho pra trás. Minha independência era mais forte que tudo, e um pouco do teu orgulho e nossas solidões misturadas. Mas isso já não importa mais, é tudo passado.
Lembro do dia que estávamos debaixo de uma arvore, que tinha pelas florezinhas rosas, tão bonitinhas. Você resolveu que queria dar uma pra mim, pulou e puxou o galho. Infeliz foi que o galho quase acabou por acertar meu olho, e arranho meu rosto. Eu não sabia se ria, ou se me aliviava por não estar cega. E você me pedindo mil perdões, beijando meu rosto, a flor caída no chão no desespero de eu quase ter perdido um olho.
E a flor ficou lá. E com o tempo, o amor também. Não é culpa de ninguém, só do tempo.
Eu pedia pra você me levar até em casa, mas lembro de que foram incontáveis as horas que ficávamos sentados na calçada da rua atrás da minha casa, pra ficar conversando, trocando beijos, sorrisos e frases idiotas. Era puro coração, era alma. Até acho que teríamos dado certo, em algum ponto que agora olho pra trás. Minha independência era mais forte que tudo, e um pouco do teu orgulho e nossas solidões misturadas. Mas isso já não importa mais, é tudo passado.
Lembro do dia que estávamos debaixo de uma arvore, que tinha pelas florezinhas rosas, tão bonitinhas. Você resolveu que queria dar uma pra mim, pulou e puxou o galho. Infeliz foi que o galho quase acabou por acertar meu olho, e arranho meu rosto. Eu não sabia se ria, ou se me aliviava por não estar cega. E você me pedindo mil perdões, beijando meu rosto, a flor caída no chão no desespero de eu quase ter perdido um olho.
E a flor ficou lá. E com o tempo, o amor também. Não é culpa de ninguém, só do tempo.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Quente.
Era um sábado suportável no calor insuportável.
Todo mundo andava pela rua se abandando, meio cabisbaixo, e não era nem dezembro ainda.
Algumas menininhas estavam de biquíni nos seus jardins amorenando a pele, utilizando aqueles óleos de cheiro enjoativo de canela e banana. Os garotos sem camisa, de skate passavam propositalmente mais lentamente na frente dos jardins das mesmas garotinhas que desamarravam a parte de trás do biquíni para que o sol banhasse as costas. Os meninos assobiavam provocantes, e as meninas, todas elas, se derretiam. Pra uns dias depois, borrarem as maquiagem de tanto chorar por eles. São só meninos, afinal, todos eles.
Algumas crianças pequenas se molhavam com mangueiras verdes reluzentes na calçada, rindo, com os olhos semicerrados pelo sol ofuscante, ou estavam em casa, doente pela mudança repentina do tempo, ardendo nos 40 graus de febre.
As mães batendo papo no portão, com frases casuais, com segredos que todo mundo já sabe, com risadas já ridas, mas tudo muito bom dentro do padrão que tinham se acolhido. Os pais, tomando cerveja, sentados nas mesas falando de coisas que não arriscavam falar perto de suas lindas esposas. O futebol era cuspido e discutido na mesa, entre os gritos e risos semiembriagados. O casamento frustrante e em decadência não passava na cabeça de ninguém.
Algumas pessoas passavam o dia inteiro nos computadores. Outros trancafiado em porões úmidos se cagando de rir por dividir um baseado com seu melhor amigo. Ouvindo música baixa, mas que com o tempo o ouvido se acostuma e parece realmente alta no silencio.
Mas era um dia quente, e o silêncio não existia. Todos suados, com as roupas mais frescas, e o inferno na terra, e o céu laranja. Mas mesmo assim estava todo mundo bem. Todo mundo sustentando um pouquinho de felicidade.
E olha, que não era nem Dezembro ainda.
Todo mundo andava pela rua se abandando, meio cabisbaixo, e não era nem dezembro ainda.
Algumas menininhas estavam de biquíni nos seus jardins amorenando a pele, utilizando aqueles óleos de cheiro enjoativo de canela e banana. Os garotos sem camisa, de skate passavam propositalmente mais lentamente na frente dos jardins das mesmas garotinhas que desamarravam a parte de trás do biquíni para que o sol banhasse as costas. Os meninos assobiavam provocantes, e as meninas, todas elas, se derretiam. Pra uns dias depois, borrarem as maquiagem de tanto chorar por eles. São só meninos, afinal, todos eles.
Algumas crianças pequenas se molhavam com mangueiras verdes reluzentes na calçada, rindo, com os olhos semicerrados pelo sol ofuscante, ou estavam em casa, doente pela mudança repentina do tempo, ardendo nos 40 graus de febre.
As mães batendo papo no portão, com frases casuais, com segredos que todo mundo já sabe, com risadas já ridas, mas tudo muito bom dentro do padrão que tinham se acolhido. Os pais, tomando cerveja, sentados nas mesas falando de coisas que não arriscavam falar perto de suas lindas esposas. O futebol era cuspido e discutido na mesa, entre os gritos e risos semiembriagados. O casamento frustrante e em decadência não passava na cabeça de ninguém.
Algumas pessoas passavam o dia inteiro nos computadores. Outros trancafiado em porões úmidos se cagando de rir por dividir um baseado com seu melhor amigo. Ouvindo música baixa, mas que com o tempo o ouvido se acostuma e parece realmente alta no silencio.
Mas era um dia quente, e o silêncio não existia. Todos suados, com as roupas mais frescas, e o inferno na terra, e o céu laranja. Mas mesmo assim estava todo mundo bem. Todo mundo sustentando um pouquinho de felicidade.
E olha, que não era nem Dezembro ainda.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Enkel.
Tinha, lá pra lá, em um lugar que nem tinha nome de tão longe, uma pequena cidade. Não viviam mais de algumas centenas de pessoas lá, mas era o suficiente. Suficiente para o mundo acabar ali mesmo. Era meio precária, cabanas tortas no meio do morro, algumas vacas e hortas em seus próprios terrenos. Não que cada pessoa tivesse um próprio território marcado, porque era tudo de todo mundo, tudo amigável porque o pecado não tinha ainda tocado a alma daqueles seres humanos tão distantes... Mas por pouco tempo.
Há alguns anos, Elizabeth, uma mulher baixinha e loira, por causa de um estupro nunca contado pra ninguém, tinha dado a luz a uma menina igualmente loira, dos olhos azuis e das bochechas rosadas. Chamaram-na de Enkel. Seria a experiência mais pura, mais linda e perfeita, mas havia algo errado com Enkel. E com a ajuda do pouco tempo e pouco amor vindo da mãe, ela não era como uma criança normal. Nos primeiros anos, a mãe da menina não achava normal porque ela não chorava. Não chorará na hora do parto, e nem depois. Simplesmente permanecia quieta, com os grandes olhos azuis claros sempre olhando fixamente pra face de quem a pegasse no colo, ou olhando para todos os cantos do quarto onde estava.
Quando desenvolveu a habilidade de andar, Enkel quebrava tudo ao seu alcance. Não sem querer, ela simplesmente pegava as coisas, e quebrava da maneira que achava mais prudente. E gostava de quebrar coisas que tinham algum valor para os outros. Parecia que ela sabia como fazer os outros sofrer. Várias vezes o marido de Elizabeth espancou Enkel, castigou-a. Mas nenhuma lágrima, só o rosto infantil, olhando o homem. Ele se sentia culpado, todas as vezes, mas não via outras alternativas. E isso ela nem tinha passado da idade de três anos. E por mais que a mãe dela tentasse, ela não falava. Ficava quieta, com os lábios cerrados, apenas olhando a mãe implorando pra que ela falasse “mamãe”.
Com a idade de sete ou oito anos as coisas começaram a ficar um pouco mais sérias. Quebrar janelas já não era dos seus passatempos favoritos, mas sim matar pequenos animais. Constantemente achavam-na em galinheiros coberta de sangue e penas de galinha. Matou uns gatos, ratos, pássaros. A primeira vez que Elizabeth viu a menina sorrir foi quando tinha pelos 10 anos de idade e com algo que se aproximava de um canivete um uma adaga nas mãos, e um pequeno bezerro morto perto de si em um campo de gado.
Até tentaram colocar a pequena junto com outras crianças em uma escolinha infantil. Mas ela sempre estava perseguindo as outras meninas e meninos, batendo, puxando os cabelos, mordendo as crianças até que o sangue saísse grosso entre os cortes dos dentes de Enkel.
Aquilo foi a gota d’agua.
Todas as pessoas da cidade estavam amedrontadas pela a alma Enkel. Os mais velhos diziam que ela era o pecado em carne e osso, e outros diziam que era a filha do próprio Belzebu. Nenhuma família dormia sossegada, nenhuma criança brincava na rua, e constantemente os cabelos loiros avoaçados atormentavam os moradores. Elizabeth teve de tomar medidas drásticas em trancar a garota no porão de dois metros por quatro que tinha em casa. Só abria a porta pra alimentar a menina. Alguns padres, exorcistas, benzedeiros e até feiticeiros (nos momentos de mais fúria de Enkel, quando se podia ouvir ela se debatendo contra as paredes do porão), mas nenhuma reza, mandinga ou magia acalmava a menina. Só saia de lá uma vez em 10 dias, amarrada às marras pelo seu pai e mais alguns corajosos que se despunham de sua força pra segurar e amarar a garota.
Com 17 anos, com uma inteligência incomparável para qualquer pessoa residente naquela vilinha onde ela morava, a fúria de Enkel estava cada vez maior. E piorava. Entendia o medo deles, e isso fazia a sorrir, e o ódio nunca explicado, e a vontade de matar, e a vontade de provocar os outros, de sangue, de dor dos outros só crescia. Em uma das “viagens” pra fora do porão, amarrada e colocada contra um armário da cozinha conseguira pegar uma faca, discretamente que havia sido esquecida ali, e colocar por debaixo da saia, mesmo com as mãos amarradas nas costas. E quando seus malditos pais saiam para ir rezar pela alma da filha na igreja, ela tentava quebrar o cadeado pela fenda que tinha entro as madeiras da parede e a da porta. Tinha uma hora por dia quando seus pais saiam juntos, entre dez dias que não era feita a limpeza em seu “quarto” pra futricar na fechadura. Não preciso mais do que cinco. A raiva, e o fato de não ter medo da dor que tinha nas mãos de tanto mexer a faca precária, ela conseguira abrir a porta.
Pulou a janela baixa, com suas roupas sujas e fedendo, duma mistura sangue e urina seca, com os cabelos desgrenhados de ficar 24 horas por dia num local pequeno e úmido. Com metade da vila na igreja, as ruas estavam vazias e foi fácil de roubar roupas limpas de algum menino num varal correr em direção as florestas que cercavam ali, e ficar se escondendo até que anoitecia. Vestiu a camiseta masculina branca de botões, e as calças, não com muita dificuldade, pois apesar de ser roupas quase de criança, Enkel não era tão grande. Com galhos finos trançados e amarrou os cabelos em um rabo de cavalo.
Não demorou muito pra ter que se meter mais pra dentro da floresta, pois homens estavam atrás dela, gritando seu nome, suplicando para que aparecesse. Mas ela sabia que no fundo nenhum queria que ela aparecesse, e que se sumisse de vez pra sempre, pois estavam morrendo de medo de que a loirinha aparecesse. De longe, nas sombras, e com a facilidade de correr com roupas de meninos e pés descalços se escondia entre as arvores, só observando enquanto a noite caia. Portavam armas nas mãos, então ela não podia arriscar.
Enquanto a cidade adentrava a floresta, ou se abrigavam em suas casas, Enkel deu a volta na cidade, e entro de volta nas suas ruas desertas e de pouca iluminação. Andou em direção da igreja. Entrou dentro dela, sujando o piso de terra molhada, com a imagem de cristo em uma cruz acima do altar, lhe fitando com o olhar triste. Parecia saber que aquela menina não tinha mais alma pra ele, e nunca teve. Ela sorriu, com os dentes escancarados para a estátua acima dela na cruz e se segurou pra não gargalhar.
Com as pequenas mãos, derrubou propositalmente algumas velas que estavam ali por almas inocentes pelo chão e logo o fogo começou a se espalhar pelos panos do altar, e pela madeira do chão. Andando de costas para a porta, olhando o fogo se espalhar com facilidade sorriu, e saiu pela porta, ficando a frente da igreja. Umedeceu os lábios, e quase que em um piscar de olhos a igreja toda ardia em chamas altas, amarelas e vermelhas, vorazes e cheia de fúria de Enkel.
A cidade ia despertando de seus pesadelos, pra viver um real. Pouco a pouco algumas pessoas começaram a sair de suas casas gritando, pedindo ajuda a Deus, e desesperadas. Logo havia uma multidão as costas da garota loira, que não se virou, mas tinha em seu rosto o sorriso do próprio diabo. Se debatendo entre a multidão até chegar à frente estava Elizabeth.
- Enkel! – gritou a mulher ao chegar à frente de todos, e ficar a uma distancia de cinco metros da filha, que se virou e a fitou com o olhar baixo e vermelho pelo fogo que ardia as suas costas.
- Mamãe. – soou debochada, e a mulher caiu de joelhos ao ouvir pela primeira vez a voz do seu bebê. A garota riu e se aproximou da mulher de joelhos e a puxou pelos cabelos pra mais perto do fogo, onde estava antes.
A multidão se mexia a cada movimento de Enkel, mas ninguém fazia nada. Ninguém tinha coragem de falar, até parece que tinham se esquecido como se andava, ou fazia qualquer coisa. – Por quê? Por quê? – Gritava a mãe desamparada enquanto a filha a arrastava pelos cabelos pra mais perto da igreja. Jogou a no chão, fazendo um pouco de poeira levantar. Com toda a fúria quente no peito, Enkel falou. No momento pareciam apenas palavras baixas só para a mãe, mas todos os aldeões juraram ouvir como se fossem sussurros dentro dos próprios ouvidos.
- O diabo mandou lembranças da onde eu vim, e disse que não se esqueceu dos teus pecados.
Todos olhando Enkel, Enkel olhando todos, sua mãe chorando fracamente. Ela virou as costas ao povo e foi entrando na igreja em chamas, devagar, tranquila, a fúria queimada.
Houve boatos por anos sobre essa história, sobre a roupa que ela usava de verdade, que na verdade ela nem era loira, que a mãe dela não tinha esse nome, que algumas pessoas desmaiaram enquanto ela falava, ou até que morreram. Mas a frase é sempre a mesma. O nome é sempre o mesmo.
O porão, o sangue e o fogo.
Há alguns anos, Elizabeth, uma mulher baixinha e loira, por causa de um estupro nunca contado pra ninguém, tinha dado a luz a uma menina igualmente loira, dos olhos azuis e das bochechas rosadas. Chamaram-na de Enkel. Seria a experiência mais pura, mais linda e perfeita, mas havia algo errado com Enkel. E com a ajuda do pouco tempo e pouco amor vindo da mãe, ela não era como uma criança normal. Nos primeiros anos, a mãe da menina não achava normal porque ela não chorava. Não chorará na hora do parto, e nem depois. Simplesmente permanecia quieta, com os grandes olhos azuis claros sempre olhando fixamente pra face de quem a pegasse no colo, ou olhando para todos os cantos do quarto onde estava.
Quando desenvolveu a habilidade de andar, Enkel quebrava tudo ao seu alcance. Não sem querer, ela simplesmente pegava as coisas, e quebrava da maneira que achava mais prudente. E gostava de quebrar coisas que tinham algum valor para os outros. Parecia que ela sabia como fazer os outros sofrer. Várias vezes o marido de Elizabeth espancou Enkel, castigou-a. Mas nenhuma lágrima, só o rosto infantil, olhando o homem. Ele se sentia culpado, todas as vezes, mas não via outras alternativas. E isso ela nem tinha passado da idade de três anos. E por mais que a mãe dela tentasse, ela não falava. Ficava quieta, com os lábios cerrados, apenas olhando a mãe implorando pra que ela falasse “mamãe”.
Com a idade de sete ou oito anos as coisas começaram a ficar um pouco mais sérias. Quebrar janelas já não era dos seus passatempos favoritos, mas sim matar pequenos animais. Constantemente achavam-na em galinheiros coberta de sangue e penas de galinha. Matou uns gatos, ratos, pássaros. A primeira vez que Elizabeth viu a menina sorrir foi quando tinha pelos 10 anos de idade e com algo que se aproximava de um canivete um uma adaga nas mãos, e um pequeno bezerro morto perto de si em um campo de gado.
Até tentaram colocar a pequena junto com outras crianças em uma escolinha infantil. Mas ela sempre estava perseguindo as outras meninas e meninos, batendo, puxando os cabelos, mordendo as crianças até que o sangue saísse grosso entre os cortes dos dentes de Enkel.
Aquilo foi a gota d’agua.
Todas as pessoas da cidade estavam amedrontadas pela a alma Enkel. Os mais velhos diziam que ela era o pecado em carne e osso, e outros diziam que era a filha do próprio Belzebu. Nenhuma família dormia sossegada, nenhuma criança brincava na rua, e constantemente os cabelos loiros avoaçados atormentavam os moradores. Elizabeth teve de tomar medidas drásticas em trancar a garota no porão de dois metros por quatro que tinha em casa. Só abria a porta pra alimentar a menina. Alguns padres, exorcistas, benzedeiros e até feiticeiros (nos momentos de mais fúria de Enkel, quando se podia ouvir ela se debatendo contra as paredes do porão), mas nenhuma reza, mandinga ou magia acalmava a menina. Só saia de lá uma vez em 10 dias, amarrada às marras pelo seu pai e mais alguns corajosos que se despunham de sua força pra segurar e amarar a garota.
Com 17 anos, com uma inteligência incomparável para qualquer pessoa residente naquela vilinha onde ela morava, a fúria de Enkel estava cada vez maior. E piorava. Entendia o medo deles, e isso fazia a sorrir, e o ódio nunca explicado, e a vontade de matar, e a vontade de provocar os outros, de sangue, de dor dos outros só crescia. Em uma das “viagens” pra fora do porão, amarrada e colocada contra um armário da cozinha conseguira pegar uma faca, discretamente que havia sido esquecida ali, e colocar por debaixo da saia, mesmo com as mãos amarradas nas costas. E quando seus malditos pais saiam para ir rezar pela alma da filha na igreja, ela tentava quebrar o cadeado pela fenda que tinha entro as madeiras da parede e a da porta. Tinha uma hora por dia quando seus pais saiam juntos, entre dez dias que não era feita a limpeza em seu “quarto” pra futricar na fechadura. Não preciso mais do que cinco. A raiva, e o fato de não ter medo da dor que tinha nas mãos de tanto mexer a faca precária, ela conseguira abrir a porta.
Pulou a janela baixa, com suas roupas sujas e fedendo, duma mistura sangue e urina seca, com os cabelos desgrenhados de ficar 24 horas por dia num local pequeno e úmido. Com metade da vila na igreja, as ruas estavam vazias e foi fácil de roubar roupas limpas de algum menino num varal correr em direção as florestas que cercavam ali, e ficar se escondendo até que anoitecia. Vestiu a camiseta masculina branca de botões, e as calças, não com muita dificuldade, pois apesar de ser roupas quase de criança, Enkel não era tão grande. Com galhos finos trançados e amarrou os cabelos em um rabo de cavalo.
Não demorou muito pra ter que se meter mais pra dentro da floresta, pois homens estavam atrás dela, gritando seu nome, suplicando para que aparecesse. Mas ela sabia que no fundo nenhum queria que ela aparecesse, e que se sumisse de vez pra sempre, pois estavam morrendo de medo de que a loirinha aparecesse. De longe, nas sombras, e com a facilidade de correr com roupas de meninos e pés descalços se escondia entre as arvores, só observando enquanto a noite caia. Portavam armas nas mãos, então ela não podia arriscar.
Enquanto a cidade adentrava a floresta, ou se abrigavam em suas casas, Enkel deu a volta na cidade, e entro de volta nas suas ruas desertas e de pouca iluminação. Andou em direção da igreja. Entrou dentro dela, sujando o piso de terra molhada, com a imagem de cristo em uma cruz acima do altar, lhe fitando com o olhar triste. Parecia saber que aquela menina não tinha mais alma pra ele, e nunca teve. Ela sorriu, com os dentes escancarados para a estátua acima dela na cruz e se segurou pra não gargalhar.
Com as pequenas mãos, derrubou propositalmente algumas velas que estavam ali por almas inocentes pelo chão e logo o fogo começou a se espalhar pelos panos do altar, e pela madeira do chão. Andando de costas para a porta, olhando o fogo se espalhar com facilidade sorriu, e saiu pela porta, ficando a frente da igreja. Umedeceu os lábios, e quase que em um piscar de olhos a igreja toda ardia em chamas altas, amarelas e vermelhas, vorazes e cheia de fúria de Enkel.
A cidade ia despertando de seus pesadelos, pra viver um real. Pouco a pouco algumas pessoas começaram a sair de suas casas gritando, pedindo ajuda a Deus, e desesperadas. Logo havia uma multidão as costas da garota loira, que não se virou, mas tinha em seu rosto o sorriso do próprio diabo. Se debatendo entre a multidão até chegar à frente estava Elizabeth.
- Enkel! – gritou a mulher ao chegar à frente de todos, e ficar a uma distancia de cinco metros da filha, que se virou e a fitou com o olhar baixo e vermelho pelo fogo que ardia as suas costas.
- Mamãe. – soou debochada, e a mulher caiu de joelhos ao ouvir pela primeira vez a voz do seu bebê. A garota riu e se aproximou da mulher de joelhos e a puxou pelos cabelos pra mais perto do fogo, onde estava antes.
A multidão se mexia a cada movimento de Enkel, mas ninguém fazia nada. Ninguém tinha coragem de falar, até parece que tinham se esquecido como se andava, ou fazia qualquer coisa. – Por quê? Por quê? – Gritava a mãe desamparada enquanto a filha a arrastava pelos cabelos pra mais perto da igreja. Jogou a no chão, fazendo um pouco de poeira levantar. Com toda a fúria quente no peito, Enkel falou. No momento pareciam apenas palavras baixas só para a mãe, mas todos os aldeões juraram ouvir como se fossem sussurros dentro dos próprios ouvidos.
- O diabo mandou lembranças da onde eu vim, e disse que não se esqueceu dos teus pecados.
Todos olhando Enkel, Enkel olhando todos, sua mãe chorando fracamente. Ela virou as costas ao povo e foi entrando na igreja em chamas, devagar, tranquila, a fúria queimada.
Houve boatos por anos sobre essa história, sobre a roupa que ela usava de verdade, que na verdade ela nem era loira, que a mãe dela não tinha esse nome, que algumas pessoas desmaiaram enquanto ela falava, ou até que morreram. Mas a frase é sempre a mesma. O nome é sempre o mesmo.
O porão, o sangue e o fogo.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Na tardinha.
Pensei em tomar um café forte.
Pensei em comer alguma coisa.
Pensei em arrumar aquelas roupas bagunçadas.
Pensei em tirar umas fotos decentes.
Pensei em fazer algo pela minha vida.
Pensei em ser um pouquinho mais feliz.
Pensei até em você.
Nada disso fiz.
É a preguiça.
Pensei em comer alguma coisa.
Pensei em arrumar aquelas roupas bagunçadas.
Pensei em tirar umas fotos decentes.
Pensei em fazer algo pela minha vida.
Pensei em ser um pouquinho mais feliz.
Pensei até em você.
Nada disso fiz.
É a preguiça.
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