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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Lost in Translation

Tenho um certo problema para me lembrar das coisas agora. Também tenho dificuldade para criar. Recordo que antigamente era muito mais fácil para escrever sobre as coisas que aconteciam comigo, na minha vida. Criar vidas novas era ainda mais fácil. Escrever era algo muito natural; simplesmente me sentava na frente do computador e as palavras saíam das pontas dos meus dedos como água de uma cachoeira. Fluía. Violenta. Incessável. Quebrava nas pedras. Fazia o que tinha de ser feito. 

Agora.... É um grande esforço conseguir passar de um parágrafo (pelo menos desta vez já estou no segundo). Talvez seja a falta de prática. Passei vários anos sem escrever. Foram anos em que eu fui arrastando várias das coisas que eu gostava de fazer, não só a escrita. Claro, encontrei novas paixões no meio do caminho. Mas qual o motivo de eu ter abandonado outras que eram absurdamente importantes para mim antes?

Há alguns meses atrás, quando fui conferir quando tinha postado o meu último conto. Eu fiquei de boca aberta. Agosto de 2014. Antes disso, fevereiro de 2013, e antes, agosto de 2012. Foi um choque ver que foram três textos em três anos e depois mais três anos para que tivesse coragem de escrever algo novo. Estava decepcionada comigo.

Aonde foi que deu errado? Qual foi o momento da minha vida em que eu decidi deixar para trás o meu grande sonho de ser escritora? Quando foi que endureci meu coração desse jeito, fazendo com que todas as coisas que eu escreva me soem piegas, clichês, sem sentido, como se já tivesse lido aquilo em pelo menos cinco livros diferentes? Como eu faço para amolecê-lo novamente? 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Meus lábios entreabertos

E mais uma vez eu sinto como se eu fosse desaparecer, mas ao mesmo tempo estou exposta em todos os outdoors. Meu coração pula, minhas mãos tremem e eu não consigo sentir meu rosto. Nem os braços. Nem as pernas. Eu realmente só queria desaparecer.

Por que essa música continua tocando em loop na minha cabeça? A mesma frase de novo, e de novo e de novo e de novo. 

Mantenho a boca semi aberta. Uma vez, em um funeral, minha prima disse que é impossível chorar se você não estiver o maxilar cerrado. É algo que nunca saiu da minha cabeça. Mantenha a boca aberta e tente não ser abraçada. Mas eu já provei o contrário. Eu chorei com a boca aberta com um grito que jamais terminava na minha garganta. 

Dou beliscões nas bochechas, no lóbulo, arranho as palmas da mão. Tenho sempre que lembrar de aparar as unhas, porque se não isso se transformaria num desastre. Mas as vezes eu esqueço de propósito. 

Meu estômago embrulha. Nada me apetece. Será que eu bebi água hoje? Ou foi ontem? Faço escolhas destrutivas como trocar uma refeição por três cigarros. Assim como ficar olhando para o teto por duas horas seguidas enquanto aquela maldita música, aquela maldita frase toca no repeat. 

As vezes o pensamento de que algo bom pode acontecer comigo me faz suas frio. Eu não estou acostumada com me sentir confortável, me sentir capaz, me sentir digna de ser amada. Separo os lábios, ponho os dedos entre os dentes, mas as lágrimas continuam caindo enquanto meu braço adormece e a música toca e aquela voz grita que eu não sou boa suficiente para você. Sou uma bomba relógio e não mereço estragar a vida de ninguém se não a minha. 

Talvez eu devesse manter minha boca fechada. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

2016 - 2017

Subimos no ônibus. Você sentou do meu lado e eu já podia sentir o cheiro enjoativo do absinto misturado com a Coca-Cola quente que pairava na sua língua. Já não era como antes. Queria você para ficar de mãos dadas comigo, ouvindo nossas músicas e olhando os campos que passavam rapidamente por aquele vidro embaçado. Você viu o por-do-sol? Aquela nuvem fofa que estava tingida rosa e laranja? Você sabia que o que eu mais gosto de ver pela janela do ônibus são as vacas pastando preguiçosamente?

 Não sei, você estava bêbado e dormiu a viagem toda com a mão na minha coxa. 

Quando chegamos na praia, já passava das onze. Você sabe que eu odeio o escuro, que ataca minha ansiedade, mas pediu milhares de vezes que fossemos até a beira-do-mar. Eu fui. Eu tremia. De frio, de medo. Não havia uma estrela sequer no céu. Olhar aquela imensidão era como olhar para dentro e eu não conseguia parar de

 olhar pra trás; 

olhar pra frente;

 olhar pra trás; 

olhar pro lado;

 olhar pra trás. 

Meu coração estava disparado e não de um jeito bom e eu só conseguia ficar pensando "Por que eu me submeto a isso?". A gente voltou e eu me sentia enjoada enquanto você fumava sua maconha. Aquele dia dormi chorando. 

Depois, veio o 31. Trinta e um de dezembro de dois mil e dezesseis. Não era ali que queria estar. Eu não consegui nem beber para entorpecer porque a tristeza revirava meu estômago, mas isso não foi um problema pra você. Se enlouqueceu, fora de si, gritando, olhando para o céu. Será que você já sabia que o fim estava próximo? Não era ali que eu queria estar, não era com aquelas pessoas que eu mal conhecia, as músicas eram um bem ruins e tinha um gosto de ferro na minha boca. Queria muito um cigarro.

Durante os fogos, fechei meus olhos e fiz um pedido. Não lembro qual foi. Mas logo você estava falando sozinho, vomitando, eu querendo dormir mas tinha que cuidar de você, porque eu me importo contigo e eu te amo. Nunca te contei, mas foi o pior ano novo da minha vida. Me senti sozinha, acuada, perdida. 

Eu não queria estar ali. 

E depois a chuva. A gente andou por mais de meia hora no acostamento da rodovia. Eu estava com muita raiva. Você disse que era seguro, mas caia uma tempestade absurda, não conseguia ver nem um palmo na nossa frente. Era a segunda vez que eu estava com o coração disparado. Eu tremia. De frio, de medo. Olhar para aqueles carros que passavam rapidamente do nosso lado era como ver meus próprios pensamentos e eu não conseguia parar de

 olhar pra trás; 

olhar pra frente;

 olhar pra trás; 

olhar pro lado;

 olhar pra trás. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O universo está dentro de mim

Galáxias percorrem minhas veias. 
Cometas atravessam meu estomago. 
Tenho constelações na garganta. 
Meus olhos são buracos negros.
Meus órgãos são feitos de poeira cósmica.
Meu cérebro é um planeta.
Asteroides estão em meu coração.
Estrelas estão fixas no meu céu da boca.
Já sofri de eclipses milhares de vezes.

Eu sou o universo. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A chuva da garota

Quando mais novo, nos anos noventa, me mudei muitas vezes. Variando de duplex, casas com grandes quintais, sem quintais, alugadas, compradas, apartamentos, trailers, hotéis e outros lugares que talvez teria vergonha de falar. Mas minha família não se mudavam porque meu pai recebia grandes promoções ou por minha mãe ser uma renomeada escritora que precisava estar por todos os cantos do país para autografar livros. Não. Nós só nos mudávamos porque era assim que eles gostavam de viver. Não se apegavam a lugares, amigos ou empregos. Até cheguei a ser matriculado em algumas escolas, mas nunca deu muito certo, então minha escola foi o mundo, meus professores foram meus pais e os livros, meus colegas as pessoas que conheci por toda parte. 

Gostavam de conhecer todo o tipo de gente, e isso foi algo que puxei deles.

Eu não era deslocado ou tímido. Muito pelo contrário, gostava de fazer amizades por cada canto que passava, não importava idade, cor ou raça, eu sempre estava envolta dos amigos que meus pais faziam e as crianças curiosas que sempre rodeavam a gente por sermos novos na área. Há muitos lugares especiais em meu coração (como o pequeno vilarejo à beira do rio e república no topo do morro), onde aprendi coisas que nunca vou esquecer, que me fizeram ser quem sou. 

Mas nada foi tão marcante pra mim quanto a garota da chuva.

Foi no alto dos meus 14 anos quando adquirimos nosso primeiro trailer. Tínhamos permanecido em uma cidade pequena por quase um ano inteiro para que conseguissem juntar dinheiro suficiente para comprá-lo, para pagar a gasolina e outras despesas. Eu estava muito ansioso para essa viagem, porque já tinha me acostumado a me mudar mais ou menos a cada três meses, então doze meses pisando no mesmo chão estava me fazendo ficar ansioso. Ao contrário das pessoas que sentem falta de suas casas, eu estava doente por um novo lar. Viajamos por três dias direto, meus pais revezando a direção a cada doze horas para que um pudesse dormir e comer alguma coisa.

Eu dormia quando chegamos no estacionamento de trailers. Pela manhã pude ver que tinham mais de vinte espalhados por lá, estacionados de uma forma desorganizada que chegava a ser reconfortante. Foi o barulho quente de pessoas falando e rindo que me fez despertar do sono pesado no pequeno sofá que eu tinha me escorado. Era bom, eu gostava desse tipo de gente, calorosa e acolhedora. O local anterior era pequeno e com ares sombrios, de um jeito que faz a alma pesar. Mas talvez isso tenha sido uma coisa boa, as experiencias no estacionamento serem extremamente gratificantes. 

Desci do trailer e o sol ofuscou meus olhos. Eu não conseguia parar de sorrir. Havia uma grande mesa estendida na rua onde todos comiam, bebiam e falavam sem parar. As vezes eu podia ouvir até línguas estrangeiras no meio de risadas um tanto embriagadas. Alguns comiam de pé, outros estavam perto das churrasqueiras alinhadas sentados em cadeiras de praia, tinha uns tocando violão acompanhados de outros que cantavam canções que eu nunca ouvira antes. Mas eram lindas.

O calor deixava o que estava amostra das pessoas sempre estavam vermelhos ou descascados, e haviam um cheiro desconhecido que eu sempre vou me lembrar como a descrição perfeita da felicidade. 

Depois de alguns minutos conhecendo alguns "vizinho", encontrei meus pais sentados em uma toalha conversando com uma mulher, o qual era chamada carinhosamente de Baba, que eu chutei ter uns 70 anos por sua aparência, mas ela falava como uma moça de 20 anos. Era engraçada e tinha uma desenvoltura magnífica. Todos os dias eu ia até seu trailer para ouvir algumas de suas histórias loucas, as melhores eu ouvi quanto fui sozinho. Fazia um chá maravilhoso, fechava os olhos e sua língua ia despejando relatos tão magníficos que as vezes achava ser pura mente ficção.

As vezes penso em Baba e me pergunto se ela realmente era desse planeta. 

Quase todas as minhas lembranças do estacionamento são de sol fervoroso, forte, radiante, com apenas uma ou duas pequenas nuvens no céu. Na distância haviam paisagens de montanhas, que de tão longe se tornavam menores que meu polegar esticado. Mas há uma memória especifica que nunca saíra da minha mente, nem mesmo em meu leito de morte.

A chuva da garota.

O dia começou cinzento, com muito vento e eu pude ver as mulheres tirando as roupas dos varais improvisados e chamando os filhos mais velhos para dentro do trailers e carregando os mais novos no colo. Todos se trancaram em seus trailers, e o estacionamento se transformou completo silêncio por alguns minutos. Ao longe eu podia ouvir trovões que pareciam como sons de tambores. Fiquei olhando por uma janelinha, esperando os primeiros pingos de chuva cair. Foi uma tempestade intensa, daquelas que mantem um ritmo com seus pingos enormes e pesados. Essa chuva se manteve forte do minuto que começou até o que se cessou.

Meus pais foram se deitar e pareceram adormecer profundamente com o som acolhedor que a gotas fazia batendo no teto de aço, enquanto fiquei debruçado na em uma janela. Dentro do meu coração eu sabia que estava esperando algo, mas não sabia o que. Então eu a vi. Vestida em um vestido amarelo rodado de alças que iam até os joelho, parecia ter saído do nada. Tinha os cabelos curtos grudados no rosto redondo. E ela não parava de sorrir nem por um segundo. Não tinha sapatos e eu fiquei me perguntando se não doía seus pequenos pés no chão incrustado de pequenas pedras soltas. Não sei se me viu, mas enquanto girava de braços abertos sorrindo pro céu, tenho certeza que nossos olhares se encontraram através do vidro.

Até hoje fico triste por ela não estar perto o suficiente para eu ver a cor de seus olhos, mas quando ela vem me visitar em meus sonhos e me olha de perto, são cores de oliva. Deslumbrante. Mesmo de baixo da chuva gelada suas bochechas continuavam rosadas. Parecia ser talvez um ou dois anos mais velha que eu, e ficou ali dançando para aquela música que tocava somente em sua cabeça.


Então, poucos segundos antes da chuva acabar, em um piscar de olhos muito demorado que dei, ela sumiu. E a chuva foi com ela. Abri a porta e pulei para fora, e corri pelo estacionamento, mas  como uma fada ela partiu tão misteriosamente quanto chegou. Tentei descrever o melhor que eu pude a Baba, pois depois de perguntar a todos os que eu tinha feito amizade sobre a menina, era minha última chance. Mas ela também não sabia de nada. Por que eu não sai na chuva? 

Não falei mais sobre esse assunto com meus pais ou com mais ninguém, pois não queria que achassem que eu estava ficando louco ou remoendo uma alucinação. Mas sei que eu não tinha inventado aquilo, que não era coisa só da minha cabeça. A menina do vestido amarelo era tão real quanto a chuva. Não ficamos no estacionamento mais de 4 meses.

Eu ainda, toda vez que chove, não importa onde eu esteja, me debruço na janela mais próxima, esperando que possa ver aqueles pés descalços e cabelos molhados, girando e sorrindo. Mesmo que ela não saiba, que ninguém saiba, eu sei que ela estava sorrindo para mim.

E ontem a noite, eu a vi.

Texto de 2013
Remasterizado em 2017

sábado, 25 de agosto de 2012

Convivência

[...] Chegou em casa, tirou seus sapatos e colocou seus óculos em cima da mesinha da sala. Coçou a barba e se olhou de relance em um pequeno espelho que tinha na parede perto da porta. Seus olhos verdes se encontraram no espelho e sentiu uma sensação estranha de não ser ele mesmo. Com a mão na barba fixou-se naquele homem, analisando sua camiseta preta, os cabelos desgrenhados e a pinta na testa. Não parecia ter 45, qualquer um daria pra ele no máximo uns 38 anos.

"Pai?" Ele levou um susto ao ver Sarah no corredor dos quartos olhando pra ele enquanto segurava um caderno e uma caneta. "Você tá bem? Tá se olhando nesse espelho a pelo menos cinco minutos." Ficou o encarando, sem sorrir, mas pelo tom de voz não estava séria, só curiosa.

"Ah, eu estou bem sim, meu doce."  Riu, meio nervoso, pois também não tinha ideia porque tinha se perdido na sua própria imagem no espelho. Deu mais uma olhada de relance e tirou a mão da barba, colocando nos bolsos das calças jeans escuras. "Onde está sua mãe?" Voltou a olhar Sarah, que mordiscava a caneta olhando para seu caderno. "Para de morder essa caneta, ou vai acabar com a boca cheia de tinta..."

            "Tá, tanto faz" Tirou a caneta da boca revirando os olhos pro teto "Ela foi comprar uns tecidos e agulhas e não sei o que, que disse que precisava para um novo projeto ou tanto faz. Só queria saber se o almoço vai sair ou vou ter que comer miojo de novo." [...]

segunda-feira, 19 de março de 2012

"São longuinho, São Longuinho..."

Sabe quando você perde alguma coisa importante? Sempre acontece quando você mais precisa dela. 

As chaves do carro quando seu chefe liga de emergência. O controle da TV quando passa aquele comercial irritante. Seu celular quando precisa ligar à alguém. Sua caixa de remédios. É Ele. Está sempre fazendo de tudo pra irritar você. Você pode rezar pra quem quiser, mas não vai achar o que precisa até Ele devolva ao exato lugar onde você tinha deixado antes. Só vai voltar se Ele quiser. As vezes, quando você pedir para uma pessoa te ajudar, a coisa vai estar lá no lugar onde você olhou doze vezes. Só pra te deixar louco.

Mas peço de coração pra não deixar de procurar, porque Ele gosta de brincar. Se você não procurar até ele decidir ser a hora de parar de jogar, Ele pode ficar irritado. Ele pode tirar coisas mais importantes de você.

 Faz dois anos que perdi minhas chaves; não liguei, tinha uma cópia extra. Depois foram os óculos; fiz outro. Algum tempo depois perdi o carro no estacionalmento do carro, mas achei que não tinha muito a ser feito, deixei para lá.

Minha filha está desaparecida a dois anos. Mas não importa quanto eu procure, sei que Ele não irá devolver.

Essa é a minha punição. 

quinta-feira, 15 de março de 2012

O começo do fim

De longe, eu vi o mundo inteiro cair aos pedaços. Eu vi toda a humanidade que ainda existia se deteriorar, aos poucos. Na verdade, aos muitos. A população tinha diminuído a poucos milhares, e da minha janela, do oitavo andar, eu observa os prédios caídos, as almas rastejando pelas estradas.

Eu não sabia que era tão difícil se sentir impotente de fazer algo pelos outros, afinal de contas. Olhar e observar o mundo acabar, era tudo que estava ao meu alcance.

Há ainda algumas estruturas de pé por perto,e há alguém no topo de um desses prédios, que agora eram apenas como esqueletos tentando se manter de pé. Na ponta do terraço, de pé, olhando pra baixo. Eu conseguia sentir como era difícil a ideia de terminar logo com aquilo, pois eu mesmo já tinha pensado em morrer varias vezes. A luz do sol é forte demais que quase cega, o calor é insuportável, a comida acabando, água... dizem que água não tem gosto, mas é um sabor que eu sinto falta.

Mas o pior de tudo é se manter sozinho, porque querendo ou não, depois de um tempo, se você não morre primeiro, você acaba sozinho. Feito eu, e feito o ser humano suicida do terraço.

Eu poderia, talvez acenar e dar sinal avisando que eu estava ali, e que ele ou ela poderia contar comigo. Que talvez fosse nosso destino ficar juntos, conviver e aprender a amar de novo. Mas eu realmente não posso. Minha comida é pouca, e eu morreria mais cedo se "sustentasse" mais alguém. Então eu tenho que ficar quieto, e sozinho, porque é o melhor pra mim.

Provavelmente para ele também.

Então ele pula, e aqueles poucos segundos parecem milênios, séculos. Provavelmente essa desordem de tempo na minha cabeça é pelo sono e exaustão. Mas eu consigo sentir toda agonia, e por fim alivio daquele ser magro esmagado no concreto frio da rua. Porque a gente sente a mesma coisa, no fim do mundo. Todo mundo, o pouco do mundo, é igual. 

Desumano; desnutrido; desalmado.

Talvez eu devesse me matar também. Mas seria desperdício as 3 garrafas d'água que ainda me restam e as poucas latas de feijão que eu consegui. Então eu sigo olhando pela janela, tentando me aliviar na dor dos outros.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Eras

Três dedos de vodka 'num copo de plástico, e depois
na garganta.
Tem um tanto de gente por aqui,
tem um tanto de fumaça irritando meu olho.
Barulho.
Não consigo me lembrar como eu parei neste sofá sujo,
mas é evidente que tem algo a ver com o gosto amargo na minha

minha garganta.

Arranhando o céu
sem estrelas;

da boca
tua/minha boca.

Mas me deixa dormir umas horas e-
Algumas Eras.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Outro Alguém

É estranho eu me tornar alguém que sempre odiei. Todos os dias, olhar no espelho é algo insuportável, não consigo engolir minha imagem, digeri-la e sorrir.

Todas as vezes tento recusar que nunca odiei aquilo, ou a mim mesma, e tudo que se envolve por trás de ser ou não ser alguém.

"Caroline, vamos sair." Alguém, um daqueles que odeio, me diz suave, pelo telefone, ou aparecendo em minha janela. Não quero, não quero, não quero!

"Tá. Já vou sair."

E então vagar por aí. Fumar cigarros que me dão asco, beber bebidas baratas e dançar musicas repetitivas. No final das contas, todos sentados na sarjeta, vomitando, lamuriando, chorando, rindo feito babuínos. Todos juntos, tudo ao mesmo tempo. E depois de algumas horas, todos se metem em alguma casa, fumam alguma coisa, injetam outra, cheiram isso e aquilo, e cada um vai pro seu próprio mundo de merda. E eu também. Mesmo que eu odeie, eu estou lá, atirada no chão, no vomito, no meu próprio desgosto.

É triste pensar que acabei me tornando o que eu sempre mais odiei. É triste pensar que voltar, no final das contas, é impossível. Eu nunca vou deixar de ser esse alguém que não sou eu. Esse alguém que me tornei por você.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Conto de Ninar

Um sonho anda atormentando minha cabeça nos últimos dias. No começo estou me observando dormir. A luz da manhã entra pelas frestas da cortina, iluminando minhas paredes azuladas. Estou deitada de uma forma que parece desconfortável, meio torta, com a cabeça posta pra trás. Mas durmo em um sono tranquilo. Vestida com uma blusa preta e calcinha da mesma cor, me mexo até me ajeitar em uma posição normal, de barriga pra baixo. Me assistir ali é incomodo. Me sinto incomodada por me ver dormir. Isso me da um impulso de gritar:

- ACORDE!

A voz que sai de minha boca, não é minha, e eu, na cama, acordo de um salto, assustada. Agora, não sou mais a plateia de meu sono, e estou de volta ao meu corpo. Rodeio meu quarto com os olhos, observando cada canto, procurando pela voz. Nada. Me levanto, muito rápido, fico tonta, a visão foca preta por uns instantes e então tudo volta ao normal.

Vou andando pelo corredor em direção a sala, a casa parece um pouco diferente do habitual. Isso não me incomoda. As cortinas da sala estão fechadas, e vejo meu pai, sentado de costas pra mim, assistindo televisão. “Vendo”, pois há só estática ali. Chamo por ele varias vezes. Não sei se é minha voz que não funciona, ou se ele não me responde, não há som nenhum na casa depois do grito que me acordou. 

De novo, minha percepção do sonho muda, e meus olhos estão na televisão. Como se eu fosse a televisão assistindo meu pai. E ele está coberto de sangue, com a barriga aberta e suas tripas caídas no carpete branco da sala. A boca aberta, e os olhos arregalados, fixando o olhar em mim... Digo, na televisão. Me vejo logo atrás de meu pai, indo em sua direção, vendo meus lábios se moverem mas não há nenhum som. E então meus olhos voltam pro meu corpo. Inconscientemente, já sei o que vou ver, então dou um passo pra trás. A curiosidade, a maldita, é maior. Corro até meu pai, toco-lhe o ombro e ele cai de lado, com as tripas gotejando o chão, a língua caindo fora da boca, numa mistura de sangue e saliva. Ele fede. Os olhos vidrados.

Saio correndo, e mesmo que me lembre que chão de madeira da minha casa ser muito barulhento, nem um som é feito. Meus gritos, meu choro desesperado é inaudível. Correndo pelo corredor, entro no quarto de minha irmã, quase que pra fugir da realidade. Ela só tem cinco anos e seu quarto é coberto por castelos, coisas de princesa e contos de fadas. Assim que fecho a porta, e olho para o centro do quarto, pendurada pelo lustre que imitava aqueles de medievais, esta ela, enforcada, roxa. Assim como as pernas dela, penduradas, fracas, sinto as minhas amolecer. Seus olhos se fixam no meu, assim como os de meu pai na televisão. Seu pequeno corpo balança morbidamente. 

Recupero a minhas pernas e esticando a mão tremula, abro o trinco da porta que imitava um grande diamante. Me arrasto pelo corredor até sentir que podia correr novamente. Minha mãe. Corro para o quarto dos meus pais, abro a porta um pouco temerosa, mas não há nada. A cama está feita. As janelas estão com a cortina aberta, e o sol banha o quarto. É a primeira vez que eu vejo o sol, depois de acordar. Agora eu lembro, linha mãe nunca esteve em casa. Eu não tenho mãe. Corro de volta até o corredor. Um silêncio mortal. Exite uma sombra no final do corredor, parece olhar pra mim mas não se move. Desço as escadas correndo e atravesso a porta da frente, e olho pra rua. Não existe nada a não ser uma rua reta e infinita de chão batido, onde era pra afinal ter uma rua movimentada. Me sinto nua. Isso não está certo.

- ACORDE!

E estou de volta na cama. 

A flor

Então, lá estávamos nós, como sempre. Andando de mãos dadas pelas ruas de trás da avenida, onde provavelmente não encontraríamos ninguém. Eu ria o tempo todo das piadas sem graça que você fazia, dividindo tridente de melancia, e eu, como boa apaixonada, sempre com uma música de trilha sonora na cabeça. 

Faz tanto tempo...

Eu pedia pra você me levar até em casa, mas lembro de que foram incontáveis as horas que ficávamos sentados na calçada da rua de trás para ficar conversando, trocando beijos, sorrisos e frases idiotas. Era puro coração, era alma. Até acho que teríamos dado certo, olhando para trás. Minha independência era mais forte que tudo, e um pouco do teu orgulho e nossas solidões misturadas. Mas isso já não importa mais, é tudo passado.

Já se passaram dez anos.

Lembro do dia que estávamos debaixo de uma árvore, aquela das flores cor de rosa, tão lindas na primavera. Você resolveu que queria me dar uma, mesmo eu já sendo sua, e pulou para puxar o galho. Infeliz foi que o graveto que quase me cegou, e arranho meu rosto. Eu não sabia se ria ou me preocupava por poder ter ficado cega (mais isso eu estava só de amor). Você me pedindo mil perdões, beijando meu rosto, a flor caída no chão no desespero de eu quase ter perdido um olho.

E a flor ficou lá. E com o tempo, o amor também. Não é culpa de ninguém, só do tempo.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Enkel

Tinha, lá pra lá, em um lugar que nem tinha nome de tão longe, uma cidade pequena. Não viviam mais de algumas centenas de pessoas, mas era o suficiente. Suficiente para o mundo acabar ali mesmo. Era meio precária, cabanas tortas no meio do morro, algumas vacas e hortas em seus próprios terrenos. Não que cada pessoa tivesse um próprio território marcado, porque era tudo de todo mundo, tudo amigável porque o pecado não tinha ainda tocado a alma daqueles seres humanos tão distantes... Mas por pouco tempo.

Há alguns anos, Elizabeth, uma mulher pequena e loira, por causa de um estupro nunca contado pra ninguém, tinha dado a luz a uma menina igualmente loira, dos olhos azuis e das bochechas rosadas. Chamaram-na de Enkel. Seria a experiência mais pura, mais linda e perfeita, mas havia algo errado com a garota. E com a ajuda do pouco tempo e pouco amor vindo da mãe, ela não se portava normalmente. Nos primeiros anos, a mãe da menina estranhava o fato de Enkel não chorar. Não chorará na hora do parto, e nem depois. Simplesmente permanecia quieta, com os grandes olhos azuis claros sempre olhando fixamente pra face de quem a pegasse no colo, ou olhando para todos os cantos do quarto onde estava.

Ao começar a andar, Enkel quebrava tudo ao seu alcance. Não sem querer, simplesmente pegava as coisas e quebrava da maneira que achava mais prudente. E gostava de quebrar coisas que tinham algum valor para os outros. Parecia que sabia como fazer os outros sofrer. Várias vezes o marido de Elizabeth espancou Enkel, castigou-a. Mas nenhuma lágrima, só o rosto infantil, olhando o homem. Ele se sentia culpado, todas as vezes, mas não via outras alternativas. Nessa época não passava dos três anos. E por mais que a mãe dela tentasse, ela não falava. Ficava quieta, com os lábios cerrados, apenas olhando-a e a mãe implorando pra que ela falasse “mamãe”.

Com a idade de sete anos, as coisas começaram a ficar um pouco mais sérias. Quebrar janelas já não era dos seus passatempos favoritos, mas sim matar pequenos animais. Constantemente achavam-na em galinheiros coberta de sangue e penas de galinha. Matou uns três gatos, vários ratos, qualquer pássaros descuidado. A primeira vez que Elizabeth viu a menina sorrir foi quando tinha dez anos de idade. Ela estava com a machadinha de lenha nas mãos, e o cabrito da família estava esquartejado.

Até tentaram colocar a pequena junto com outras crianças em uma escolinha infantil. Mas ela sempre estava perseguindo as outras meninas e meninos, batendo, puxando os cabelos, mordendo as crianças até que o sangue saísse grosso entre os cortes dos dentes de Enkel.

Aquilo foi a gota d’agua.

Todas as pessoas da cidade estavam amedrontadas pela a alma Enkel. Os mais velhos diziam que ela era o pecado em carne e osso, e outros diziam que era a filha do próprio Belzebu. Nenhuma família dormia sossegada, nenhuma criança brincava na rua, e constantemente os cabelos loiros avoaçados pelas ruas atormentavam os moradores. Elizabeth teve de tomar medidas drásticas e acabou por trancar garota no porão de dois metros por quatro que tinha em casa. Só abria a porta pra alimentar a menina. Alguns padres, exorcistas, benzedeiros e até feiticeiros (nos momentos de mais fúria de Enkel, quando se podia ouvir ela se debatendo contra as paredes do porão) foram convocados, mas nenhuma reza, mandinga ou magia acalmava a menina. Ela só saia de lá uma vez por mês, quando precisavam de ajuda de pelo menos cinco homens adultos para amarrá-la e arrastá-la para a igreja.

Aos 17 anos, com uma inteligência incomparável para qualquer pessoa residente naquela vilinha, a fúria de Enkel estava cada vez maior. E piorava. Entendia o medo deles, e isso fazia a sorrir, e o ódio nunca explicado, e a vontade de matar, e a vontade de provocar os outros, de sangue, de ser dona da dor só crescia. Uma vez, no dia da igreja, foi jogada de costas contra a mesa da cozinha enquanto era dominada. A mão dela escorregou rapidamente e uma faca foi parar debaixo da saia. 

Alguns dias depois, quando seus malditos pais saiam para ir rezar por sua alma, ela tentava quebrar o cadeado pela fenda que tinha entro as madeiras da parede e a da porta. Seus pais saiam juntos de casa uma hora por dia, então já estava com o cálculo feito na sua cabeça. Mas não foi necessário. Não demorou mais de vinte minutos para desvendar o ângulo certo de virar a faca para o cadeado velho ceder. Se foi com ajuda da raiva ou de algo mais, não se sabe. Estava livre. 

Pulou a janela, com suas roupas sujas e fedendo, duma mistura sangue e urina seca, com os cabelos desgrenhados de ficar 24 horas por dia num local pequeno e úmido. Com metade da vila na igreja, as ruas estavam vazias e foi fácil de roubar de um varal uma calça e camisa de menino e correr em direção da floresta que cercava a vila. Vestiu as roupas, não com muita dificuldade, pois apesar de ser roupas de criança, Enkel nunca desenvolvera muito. Com galhos finos trançados e amarrou os cabelos em um rabo de cavalo. Correu a noite toda. 

Não demorou muito pra ter que se meter mais pra dentro da floresta, pois os homens estavam atrás dela, gritando seu nome, suplicando para que aparecesse. Mas sabia que no fundo nenhum deles queria que ela aparecesse, seria uma benção se sumisse de vez pra sempre, não é mesmo? Todos estavam apavorados com a ideia de que a o demônio loiro voltasse. Ela só não atacou naquele momento pois vira armas. Esperaria. 

Enquanto os homemns adentrava a floresta e as mulheres e crianças se abrigavam em suas casas, Enkel deu a volta na cidade, e entrou de volta nas suas ruas desertas e de pouca iluminação. Andou em direção da igreja. Entrou, sujando o piso de terra molhada, com a imagem de cristo em uma cruz acima do altar, lhe fitando com o olhar triste. Parecia saber que aquela menina não tinha mais alma pra ele, e nunca teve. Ela sorriu, com os dentes escancarados para aquela estátua que não tinha nenhum significado para ela. 

Com as mãospequenas, derrubou propositalmente algumas velas que provavelmente tinham sido acesas em piedade de seu ser. O fogo se espalhou rápido.  Andando de costas para a porta e olhando o as chamas se espalhar com facilidade, saiu e sorriu. Umedeceu os lábios, e quase que em um piscar de olhos a igreja toda ardia, labaredas amarelas e vermelhas, vorazes e cheia com a fúria de Enkel.

A cidade ia despertando de seus pesadelos, pra viver um real. Pouco a pouco algumas pessoas começaram a sair de suas casas gritando, pedindo ajuda a Deus, e desesperadas. Logo havia uma multidão as costas da garota loira, que não se virou, mas tinha em seu rosto o sorriso do próprio diabo. Se debatendo entre a multidão até chegar à frente estava Elizabeth.

"Enkel!" Gritou a mulher ao chegar à frente de todos, mas ficou a uma distância de cinco metros da filha. A menina se virou, seus olhos cintilavam. 

"Mamãe," soou debochada, e a mulher caiu de joelhos ao ouvir pela primeira vez a voz do seu bebê. A garota riu e se aproximou da mulher de joelhos, puxando-a pelos cabelos pra mais perto do fogo. 

A multidão se mexia a cada movimento de Enkel, mas ninguém fazia nada. Era como a última dança. Ninguém tinha coragem de falar, até parece que tinham se esquecido como se andava, ou fazia qualquer coisa. "Por quê? Por quê?" Gritava a mãe desamparada enquanto a filha a arrastava pelos cabelos pra mais perto da igreja. Parecia ter uma força descomunal. Jogou a no chão, fazendo um pouco de poeira levantar. Com toda a fúria quente no peito, Enkel falou. No momento pareciam apenas palavras baixas só para a mãe, mas todos os aldeões juraram ouvir como se fossem sussurros dentro dos próprios ouvidos.

"O diabo mandou lembranças da onde eu vim, e disse que não se esqueceu dos teus pecados."

Todos olhando Enkel, Enkel olhando todos, sua mãe chorando fracamente. Ela virou as costas ao povo e foi entrando na igreja em chamas, devagar, tranquila, a fúria queimada.

Houve boatos por anos sobre essa história, sobre a roupa que ela usava de verdade, que na verdade ela nem era loira, que a mãe dela não tinha esse nome, que algumas pessoas desmaiaram enquanto ela falava, ou até que morreram. Mas a frase é sempre a mesma. O nome é sempre o mesmo.

O porão, o sangue e o fogo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A luz que a lua não tem

E estava ali lua, parada. Minha alma quase sempre inquieta, acalma. Meu pés frios, esquentam. Minha alma derrete, é o verão. Mais uma palavras no papel, um pé na frente do futuro mas não pra seguir, sim pra tropeçar. 

E a lua amarela, estática, me olhando. 

Sou tão lua quanto ela própria. Sozinha, precisando de uma iluminação que eu nunca fui capaz de produzir por mim só ser. Preciso de ti como todas as outras coisas que não tenho. Preciso um pouco mais de mim, um pouco mais de não pensar demais.

Mais uma vez sozinha. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

Um dia qualquer

Segunda-feira, um tédio total. O sol resolveu matar todo mundo hoje. Ninguém prestando atenção em nenhuma palavra que a palestrante falava, tanto que até ela se perdeu várias vezes, e não se achava. Gaguejava bastante, provavelmente a primeira vez que fazia aquilo, mas isso não era problema de ninguém. Dia errado pra ela começar, muito quente. Quem diria que depois dali ela beberia tanto o seu fracasso e acabaria em um hospital em coma alcoólico. Mas isso não era problema de ninguém dentro daquele do salão. Cada um tinha seus próprios problemas.

O ar estava quebrado, e os ventiladores portáteis que trouxeram não eram suficientes. Uma menina de cabelo cacheada estava grávida de poucas semanas, e batucava o lápis na mesa freneticamente. Mas isso não era problema de ninguém, além dela e do loirinho do fundo da sala, que roía as unhas. O pai.

Outra fungava e espirrava freneticamente, gripada em dezembro com os termômetros 39 graus, talvez 40. Morreu uns dias depois da palestra. Mas nem foi da gripe, atropelada mesmo. Mas isso era um problema de ninguém ali no salão.

Tinha um cara, chamado... Ninguém sabia o nome dele na real, mas chamavam ele de Jones. Jones dormia em todas as aulas, todas as palavras, o intervalo inteiro. Um vagabundo visto pelos outros dali, babando na classe em cima dos próprios livros. O que ninguém sabia é que ele trabalhava a noite toda pra sustentar a mãe viciada e a irmã menor, tinha no máximo quatro horas de sono decente e ainda tinha que estudar absurdamente mais do que todos em sua volta para manter a bolsa naquela maldita faculdade. 

Naquele calor que me faz crer fielmente que o inferno era ali, eu não tinha nenhum problema. Eu achava que tinha, vários. Tipo as contas, os amores, mas os meus eram menor. Eu era menor. Bem pequeno. E no final, todo mundo dentro do seu próprio mundo de problemas, crescendo, chorando, desistindo e morrendo. 

 Mais morrendo do que qualquer coisa.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Obsoleto

- Toda a sua negação não vale um centavo! Eu me lembro bem da vez que tu escreveu, e disse, e sentiu que me amava. Você pode enganar todo mundo, menos a mim.

- Tanto faz.

- Da onde que veio toda essa indiferença? E pra que essa indiferença? Tu costumava a me amar, e ler os teus poemas pra mim. Pra que isso tudo agora?

- Sei lá.

- Sei lá? SEI LÁ? Porra, Luiza.

- É, sei lá.

- Caralho. Eu achei que tu me amava.

- Eu também achei.

Coçou o nariz.

- Vai embora.

- Eu já fui faz tempo.

Daí se beijaram.

E começou tudo de novo. Ela se afastou, ele ficou puto, ela volta, e ele acha que vai dar certo. Mas nunca dá. Sempre dá.

- Até quando, Luiza? Até quando?

Ela traga o cigarro lentamente, e sorri com os olhos semi-cerrados.

-Pra sempre.

E ri.

Cruel

Aquela lanchonete, do fim da rua. Tão perto e tão longe.
E tu decidiu que ia se encontrar lá.
Lá com outro alguém, que não eu, que tão distante.
E eu?
Onde eu estou?
-
E eu que só tinha um coração,
me sinto um tanto afundando na lama.
Agora ando pelas ruas esperando que alguém me encontre,
alguém que não é real, ou que não existe.
A culpa é sua.
-
Chora.
E todos seus suicídios, e todos os meus.
Eu vou tentar mais umas vez, vem comigo.
Olha só meu peito aberto, toda a vergonha escorrendo entre meus dentes.
-
As mãos em ti não são as minhas.
As minha mãos não são as minhas.
As suas mãos, cadê?
Cocaína.
E teu sorriso, aberto, maniaco.
E teu choro, sofrido, desesperado.
São 5 e meia da manhã.
-
E então eu morri na praia.
e você feliz na tua casa de campo,
com seus filhos puxando sua saia rodada.
Eu afogado.
Eu morto.
Podia ter sido diferente.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

I do

O salão não é tão grande quanto queríamos, e nem todos os queridos estão por perto. Mas os que estão, são importantes. Essa meia luz, e a nossa música tocando, tu ajeitando meu cabelo desjeitosamente, todo mundo em volta, alguns sentados, alguns de pés, muitas câmeras e flashes. Minhas pernas estão meio bambas, como na primeira vez que te vi.

Teu sorriso é tão lindo, combinando com meus olhos marejados. Meu vestido preto, longo. Se lembra quando eu disse que eu não ia usar longo? E eu nem tô de tênis como eu prometi a muitos anos atrás. Estranho isso agora. E você fica tão lindo de terno como eu disse que ficaria. Dançar com você é tão fácil... Tua mão na minha cintura, e meus braços envolta do teu pescoço. Eu tenho que me controlar pra não chorar, porque isso é tudo que eu sempre quis. Eu e você.

Dublando a letra da música, com a testa encostada, dançando lentamente, num momento que não acaba, e todos sorrindo, e alguns parentes chorando e amigos bebendo, e todo nosso futuro na palma da nossa mão. Pra sempre.

Eu aceito ter você para o resto da minha vida. É tudo que eu mais quero.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Aos meus Amores, Amantes, Amados, e afins.

Meus. MEUS.
Meus e de mais ninguém.
Por hoje e só.

Elementos.

Para as mechas de cabelo colorido, meu peito nu contra o teu. Sorriso que vacila, que cresce, que some. Tudo escuro, teu olhos na noite. E você não sente, não me sente, não se senta. Inquieto, e eu roendo os dedos, porque as unhas já se foram a tempo. Os cafés e a fumaça invisível na varanda. A pouca vodka com muito gelo, muito desdem com pouco caso. Cospe, bate, range os dentes lindamente tortos, e não chora. "Chorar?" Livros, dezenas deles, centenas juntando os meus com os teus. Teus dedos gelados sempre. Caneta, e papel, e tinta na pele, e pele na boca. O verde, das árvores, da camiseta, do lápis, do olhos, da casa. O rosa das bochechas e dos mamilos. A nossa flor mais bonita, cara desmaqueada na manhãzinha, ódio puro. Dentes, mordidas, garras, roxos, risadas bêbadas. A gente. A igreja queimando na mente. Aos triplos, aos quadrupolos. Tiros no escuros, brincadeiras infantis, roupa velha e vestido caro. Milhares de gostos de bocas diferentes, beijos gelados de sorvete de butiá, horas no deck olhando um céu azul que não existe mais. Os chicletes que não me deu, o guaraná. A praça, o retrato (que eu sei que usa com foto de outro alguém).

Água.

Aos presentes que nunca foram dados, os desenhos feito a mão, e as cartas. Fita do lado do cabelo da outra menina, e minhas calças rasgadas no joelho quando eu cai de bicicleta. Cheiro bom, perfume barato. Letra feia que tu não entende, aqueles textos meus que tu não entende mais diz amar, e os grandes demais que lê pela metade. O fim era pra ti. Perca de pontos e virgulas, perca de tempo. Tua língua dançando com a minha, as horas jogando. Teus braços, meus abraços. Fotos, espinhas, cabelos crescendo, A última música, o último filme, beijo e colo. Nariz escorrendo. Frio.

Fogo.

Colchão contigo, cantar baixinho, nariz com nariz. Dedos pela coluna, braços, suspiro no ouvido. Gemido. Arrepio. Ciúmes! Muito ciúmes. Todo o ciúme do mundo. Sinuca, sofá. Olhos revirando. Beijos na testa, nos braços, na boca. Lábios rosados. Andar de carro. Fugir de carro. Entrelaçar de dedos. Mentir. Sentar na escada. Morango. Ah, como tu é doce, delicada. Falta de dinheiro, calcinha vermelha. Blusa caída, vergonha. Pescoço e panturrilha. Mãos por todo o corpo. Fotos só as tuas. As palavras bonitas e complicadas sem sentido. Textos e indiretas. Estuda comigo?

Ar.

Internet, muito da internet. Redes sociais, entrevistas, fotos, gostos estranhos e iguais. Muita mentira, muita traição. De amor, de confiança... tipo diamante quebrado. Webcam, pimenta. Queria poder voltar pro teu colo e pros dias antigos. Cappuccino, sete de setembro. Shows desconhecidos, festas, danças promiscuas, dedos onde não deviam estar. Olhos fechados, pescoço posto pra trás e tua mão na minha cintura. Barba roçando no meu rosto e gosto de cigarro. Sedução. Maldita abóbora arrependida. Confiar. Não confiar. Fim de tarde, fim do amor. Por-do-sol.

Terra.

Cueca, eu de sutiã e sorriso idiota. Pizza, sorvete, tererê. Lagrimas, chorando cachoeiras, cortes no rosto, cicatriz, a falta que você me faz. Lábios mordidos, feridas abertas, peito dilacerado. Acidentes de percurso, acidente de carro. Três tchaus em uma noite só, beijos desapaixonados. Cortina florida, cozinha cheia de gente despedaçada. O simples fato de eu não saber quem sou, quem tu é, quem tu foi e quem tu vai ser. Todos vocês. Toda eu. E você me abandonou. Eu te odeio.



Você ainda lembram de todas as coisas que passamos? Eu lembro. A primeira frase, a última também. A do meio e a que saiu pela metade.

Provavelmente você nem pensa mais em mim. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Madness II

Passei tempos, dias, meses, pensando nesse momento. Ah, Carol... se você soubesse. Meus olhos ardem, eu estou cheio de você, cheio do seu cheiro, todo esse tempo, cheio de uma fúria infinita que desconto a cada chute. Porque diabos você teve que me deixar? Tem muita coisa que eu queria que você soubesse, mas acho que não tenho muito tempo.

Você grita demais, mas aqui ninguém vai te ouvir. Além de mim. Podia ter ouvido antes, todos os prós e contras da minha mente, mas escolho isso. Você morrer.

Acho que eu nem sei porque estou fazendo isso. Que horas são? Um dia se quer me amou, princesa?

Ando pra lá e pra cá, segurando os cabelos mais compridos que o normal, começando a fazer cachos. Olhando pra você, seus cabelos lisos e loiros, caídos no chão, perto da parede, banhados do teu sangue... é quase arte. Todas as lagrimas no meu rosto, são suas. E as suas, que nunca chorou por mim antes... maldita. Querendo fugir? Não dessa vez. Te pego pelos ombros, e te jogo pro lado. Cambaleante se vai de costas no chão. Te chuto, chuto, todo o sangue que sai ela tua boca, e cortes, a sua falta de respiração. Me é apavorante, mas gosto da sensação.

- Eu sempre...amei...você! - minha voz sai como um corvo, entre os dentes cerrados.

Teus olhos castanhos, teus lábios rosados com esse batom que eu nunca vi. E teu cabelo ta com um corte diferente do que eu me lembro. Eu preferia o outro. E pra que toda essa maquiagem? Tu é tão bonita... Desde da ultima vez, eu desejava acabar com você, porque você acabou comigo. Desde a ultima palavra, aquele ódio quando joguei o vaso de flor contra a parede. Furioso.

Vou até a mochila, aquela velha que usei na viagem para a Europa contigo, e tiro minha arma, tremendo. Minhas mãos estão suadas demais, odeio isso. Tem um buraco no meu peito, desde o dia que tu foi.

Você caída, sangrando, chorando, tudo arte minha. Nem parece um dia a guria que foi minha.

- Carol.

Meus olhos prestes a chorar. Dentes cerrados, engatilho a arma.

- Gi-Gil..

Aponto a arma pra tua cabeça, eu não posso suportar ouvir o que tem a dizer, a ouvir sua voz, sentir a tua dor que eu tô provocando. Engulo a seco.

Fecho os olhos com força, gatilho apertado.

Não tenho coragem de abri-los, então mais uma vez engatilho a arma, e apontando pra minha testa, aperto o gatilho pela última vez.

O dia ficou vermelho, que nem o tom da minha fúria.